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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

a técnica perdida de achar coisas que não existem (3)


No quarto do hotel luxuoso ― de estilo moderno, porém retrô ―, nem todas as notícias a me aguardar eram boas. Como prometido, as instruções detalhadas do que deveria fazer no dia seguinte lá estavam, dentro de um envelope com as iniciais DSK. Quem diabos é essa pessoa, ou seria uma empresa? O “d” e o “s” ainda poderiam encaixar em mim, via-me tranquilamente como Daniel Santos, Douglas Silva, ou até Diego Souza, mas o K fazia pensar num sobrenome estrangeiro. E eu tinha cara de tudo, menos de japa ou gringo. O conteúdo da mala preta foi outro balde de água gelada: roupas de mulher.
Figura, corpo, presença, são designações muito elaboradas, noções situadas na região dos meios; o mesmo já não se pode dizer da existência de carne e osso despida de nome: algo nela ainda não penetrou até às fontes físicas da vida, permanecendo ao largo do organismo inconsciente e generalizável onde se abriga a idéia. Eu estava ali completamente só, procurando religar os fios de algum propósito aos nervos e tendões de um corpo, de uma biografia, quando decidi que não seria o Ricardo-Coração-de-Leão, mas o Ricardo-Coração-dos-Outros ― passaria a viver consoante o que esperassem de mim, e não mais me conformaria à ilusão auto-imposta de um self único, pessoal e intransferível.
Pagando bem, que mal que tem? Ia ser pago para atuar num filme comercial, uma propaganda de um produto médico. Um ator era o que queriam que eu fosse? Eu seria um ator. Sem problemas, contanto que me dessem hospedagem, roupas, traslados, mordomias, grana no bolso, e, ao final, me pusessem de volta num avião. Pode-se viver perfeitamente sem uma identidade fixa, estável, neste mundo de consistência mercurial onde as perguntas já contêm as respostas. Por um desses redobramentos de fora para dentro, tudo sempre pode ser outra coisa, mas é a superfície que se torna essencial e profunda.
A van chegou pontualmente à oito da manhã para me buscar. Fui levado pelas ruas de uma cidade desconhecida para o galpão de uma produtora num bairro residencial e bastante arborizado. Gravar um comercial de poucos segundos é uma atividade extenuante que envolve uma equipe inimaginável de fotógrafos, editores, diretores, produtores, técnicos, maquiadores e figurinistas, além dos atores. Há todo tipo de especialistas num set de filmagens, inclusive os experts em coisa nenhuma. Ficamos um dia inteiro repetindo cenas, acertando a luz, o som, as falas, a marcação de cena, até chegar a uma peça audiovisual que seria submetida à aprovação do cliente no dia seguinte.
Pelo que pude acompanhar da montagem na edição final, o filmete ficou mais ou menos assim:
Cena 1 – Plano aberto, externa. Tiozinho sentado na praia numa cadeira branca tomando uma água de côco, aproxima-se uma gostosona, falsa loira, de biquíni cortininha fio dental ao som de um samba partido alto. Ela deixa cair a canga e se agacha para pegá-la arrebitando o bumbum bem na frente do macróbio, sem despertar nenhuma reação nele. Um sujeito de agasalho azul escuro que corria na areia da praia, chega pelo lado oposto da cadeira, por trás, e recomenda ao velhinho:
― Ô gente fina, tome Anemokol rapaz!
Cena 2 – Enquadramento médio, cena de estúdio, plano-seqüência único, um consultório médico bem clean, na parede do fundo de divisórias brancas um crucifixo de ferro batido, onde no lugar do Cristo vê-se o Homem Vitruviano. O médico, já de certa idade, respeitavelmente vestido com um jaleco de manga curta, óculos drummondianos, bigode fino e estetoscópio em volta o pescoço, caminha da direita para a esquerda, e se senta na mesa de trabalho segurando uma caixa do produto virada para a tela.
― A saúde, a energia, a vitalidade, e o apetite, você consegue com...? Anemokol!
Packshot 1 – caixas empilhadas do produto, entra um lettering horizontal com o nome do produto, seguido de uma faixa diagonal que repete a fala do locutor:
― Anemokol, à venda nas farmácias e drogarias.
(Volta para a cena inicial) – Contraplano da cena 1, o velhinho se levanta, animado só com a dica, e corre pra xavecar a moça que se afastava na praia pela esquerda. À direita da tela o corredor se afasta.
Cena 3 – Edição rápida de várias externas com entrevistas de populares dando opinião sobre o remédio (no táxi, no botequim, no balcão da farmácia, na feira, um anão fala com a boca cheia de frango, etc.).
Packshot 2 - caixas empilhadas do produto, entra um lettering horizontal com o nome do produto, seguido de uma faixa diagonal com a fala do locutor:
― Anemokol, à venda nas farmácias e drogarias.
Cena 4 – Quarto de hotel, close no homem de chapéu e terno pretos (sou eu), óculos escuros, cinto fivelão de vaqueiro e botas idem de couro; ele termina de se vestir, travelling pelo quarto até uma mulher inteiramente nua, coberta apenas no púbis e mamilos por flocos de espuma, que emerge de uma jacuzzi com uma toalha enrolada na cabeça. Música sertaneja.
― Eu sou o machão brasileiro: invejado pelos homens, e querido, amado, pelas mulheres. Sabe por quê? Porque eu tomo Anemokol, A-ne-mo-kol. Com Anemokol eu tenho saúde, vitalidade... e muito apetite! È isso aí, Anemokol, vai por mim.
Já sem a toalha na cabeça, a morena escultural soltou os longos cabelos negros, vem por trás e me abraça, carinhosa e submissa. Eu, inteiramente vestido, ela, nua.
Packshot final - caixas empilhadas do produto, entra um lettering horizontal com o nome do produto, seguido de uma faixa diagonal com a fala do locutor, que desta vez acrescenta uma frase:
― Anemokol, à venda nas farmácias e drogarias. Anemokol, o estimulante do século!


segunda-feira, 15 de setembro de 2014

a técnica perdida de achar coisas que não existem (2)



Tudo que é sólido apodrece no ar, e tudo sempre pode piorar. O trombadinha desaparecera no mundo. Para completar o roteiro do desastre, talvez também tivesse levado o celular, fora que, durante a busca na sacola e nos bolsos não havia encontrado nenhum tablet ou laptop. Depositei as esperanças cadentes em alguma etiqueta na mala que pudesse devolver-me, senão uma identidade, ao menos um nome e algumas roupas do meu número. Mas, qual mala era a minha, naquele insano arraial de modelos e cores e formatos serpenteando na passarela de borracha?
Porra nenhuma a fazer, a não ser esperar pela bagagem que sobrasse por último, ou seja, resgatar-me por exclusão. Saí do bololô de gente para aguardar sentado; com mais tempo e lucidez de espírito, comecei a investigar os dados imediatos da minha mente em estado de choque. Percebi que lembrava alguns fragmentos de fatos e cenas, mas não tinha acesso a nenhuma narrativa, verdadeira ou falsa, para costurar um sentido a eles. Eu sabia algumas coisas, por exemplo, ajudei o meu vizinho de vôo a reconectar seu smartphone na rede depois da aterrissagem, mas ignorava como, por que e, principalmente, quem sabia fazer isso com tanta desenvoltura.
O mais sensato talvez fosse procurar a polícia e comunicar o roubo, mas uma outra voz interior dizia para esperar que o conteúdo da mala revelasse mais sobre mim. E se eu fosse um ladrão, um assassino procurado, talvez até uma “mula” carregando drogas clandestinamente? Ri sozinho desta última hipótese ― mesmo que tivesse engolido papelotes revestidos de aço, estariam imprestáveis a esta hora. Passei então a escrutinar a aparência geral e os sinais particulares: uso a barba curta, cerrada, aproximadamente um metro e setenta e cinco de altura, cabelos e olhos castanhos, nem gordo, nem magro, tatuagem na omoplata direita (um ideograma), idade indefinível, possivelmente entre a quarta e a quinta década, marca de vacina, cicatriz de cirurgia no joelho esquerdo, sem aliança, pulseira ou gargantilha; relógio: Rolex falso.
Espontaneamente prestava mais atenção à parcela feminina do meu entorno, porém, a julgar pela diversidade de corpos e estilos que fixavam meu olhar, não devia ser dos mais específicos nas preferências desse tipo. Era como se me houvessem instalado uma divisória virtual no cérebro, ambas as metades permaneciam operacionais, apenas não se comunicavam entre si. A lembrança de uma tabuleta escrita à mão: “Chapéus para homens de palha”. Parecia uma cena antiga ― um trocadilho familiar, talvez ― embora descrevesse com acurácia a minha condição atual, eu era um homem oco, um sujeito recheado de memórias sem sujeito. O homem de palha.
Lentamente, o salão foi se esvaziando. Uma única mala preta, inútil e sozinha, continuava a entrar e sair pelas cortinas do compartimento de bagagens. Peguei-a e saí para a área de desembarque doméstico, onde uma nova pequena turba aguardava. Foi só quando cruzei a porta automática que entendi o absurdo da situação. Familiares se abraçavam, namorados, esposas, maridos, pais e filhos, amigos e amantes matavam as saudades ― e havia pessoas com placas, aquelas placas com nomes escritos. Várias possibilidades se abriam e fechavam, também os outros não me reconheciam, chamavam, nem abraçavam.
Os portadores de placa aparentavam querer que eu fosse o ser da placa, claro, mais para acabar com suas esperas do que pra me tirar deste limbo. Algumas, com nomes bonitos, eu fitava por mais tempo, como se, à força de olhar para aqueles nomes, pudesse me tornar o ser correspondente. Vinícius Piedade, Élio Siridião, Rogério Marques, Giulio Gabbana, Tito Lima, Mr. Vollard, Ambrose, Saulo Sakata... Porém, os seres atrás das placas logo encontravam seus destinatários, ou desviavam de mim o olhar entediado; todos menos um: o cara de bigode, óculos, sorriso, pança e um cartaz onde havia apenas 3 letras: D S K.
― Dê-esse-cá?
― O quê?!
― Quê não, cá! Seu vôo atrasou.
― Sim, claro, atrasou um bocado, faltou teto pra pousar... ― esperava que ele me esclarecesse, ou fizesse uma pergunta iluminadora, mas o camarada foi logo pegando as minhas coisas e dirigindo o carrinho para o estacionamento. Não me chamava por nenhum nome, portava-se em relação a mim com a deferência respeitosa e entrona que se dispensa às celebridades. Será que eu sou alguém famoso?
― Desculpe, esqueci de me apresentar, Viwelson.
― Prazer, Vinelson, é... pra onde estamos indo?
― É Viwelson, com “w” no segundo “v”. Vou te levar pro Marriott, padrão, né?
― Muito bom, imagino. Tarde pra você estar trabalhando, não?
― Tô de boa. Vão liberar a manhã pra mim, mas você, eles vêm pegar logo cedo. Oito da matina. O roteiro já vai estar na mesa do seu quarto no hotel.
No carro em alta velocidade pelas ruas de uma cidade qualquer à noite, eu me perguntava se não estaria roubando o destino do verdadeiro DSK, que neste momento no aeroporto procurava desesperado a plaquinha que assaltei. Não estaria furtando seu passado, sua personalidade, raptando-lhe a posição social e os sonhos, usurpando sua profissão? Teria eu despojado um legítimo cidadão de sua mulher e filhos, sua chácara no campo, seus cães de raça, arrebatado uma vida inteira num só golpe? Imbuído desse espírito pirata, comecei a me debruçar sobre a conversa do Viwelson, ele me consultava como se eu fosse uma espécie de autoridade em relacionamentos.
― Então, né, eu e essa mina temos uma relação exclusivamente física, tipo eu te uso e você me usa, saca?, mas aí vem o problema: me amarrei nela, à vera.
― Aí é que a porca torce o rabicó ― parecia-me para lá de surpreendente que aquele cara de bigode, óculos, sorriso, pança, e que ainda há pouco segurava o cartaz do D S K, tivesse relações “puramente físicas” com alguém, e isso o incomodasse ― Esses lances foram feitos pra ser simples, leves... e sem love.
― É, eu achei que agüentava, deu não. Reparei que ela só me procura entre um relacionamento sério e outro, nunca me dá a camisa de titular. Acho que, no amor, pra mim não tem jogo amistoso, é tudo final de Copa do Mundo.
― Pois então, a gente acha muita coisa que não é, sexo é fodinha, meu amigo, amor que é fodão ― nem podia crer na facilidade com que debitava tais enormidades, devia ter feito isso a vida toda.
― Mas, e aí, que é que eu faço?
― Vai por mim, você entrou pela porta errada na vida dessa mulher, às vezes o cara consegue sair e achar a porta certa, às vezes não.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

a técnica perdida de achar coisas que não existem (1)




            Há uma metade do nosso corpo que nunca se adestra e coabita em nós como passageira clandestina de um lotação idem ― em geral, é o hemisfério canhoto a permanecer estabanado e indispensável pela existência a fora. (Embora isto não se aplique perfeitamente aos chamados sinistros, ou os que, como eu, alternam as lateralidades de perna, pé, mão e orientação política). Como num espelho de circo onde nossa imagem se confunde, derrubamos a chave, desaprendemos o nó, mudamos de caligrafia, erramos o salto parecendo grogues. Assim, dissimétricos, fomos nos construindo e sendo construídos: a atitude de resguardo à integridade, um certo atabalhoamento destruidor do ambiente, a auto-percepção desproporcionada da motricidade fina. Nosso lado canhestro move-se como um astronauta na lua, saltando bêbado de leveza, derrubando alegremente o que encontra no caminho, eternamente indeciso entre bagunçar e servir.
            Isto me ocorria difusamente naquele exato instante em que ajeitava a alça da mochila sobre o ombro esquerdo. Tinha acabado de sair do avião, atravessei o finger marcando passo no meio da multidão de passageiros e me dirigia à esteira das bagagens quando fui abalroado por um desconhecido. Nossas bolsas e sacolas de mão se esparramaram no chão. Trocamos as desculpas protocolares, em civilizado acordo com a impessoalidade de um saguão de aeroporto, e nos desembaraçamos o mais rápido que pudemos um do outro.
            ― Caramba, você estava distraído checando o celular!
― Foi mal. Estas pastas caíram da sua... não?
Sentia-me um tanto tresnoitado pela viagem noturna, mas tudo corria bem, tirando, talvez, a leve sensação de náusea começada ainda no vôo. Havia dormido o sono torturado das viagens aéreas, despertei espavorido e já meio virado com o toque da campainha daqueles avisos de bordo. Sonhava com o bairro da infância, na verdade, com os cães de um vizinho pancada: três tristes cães da raça boxer, ele os criava no quintal forrado de cerâmica e lajota da frente da casa; uma alta grade de ferro pintada de verde, toda furadinha, permitia acompanhar a vida feroz daqueles machos que viviam se atracando em brigas feias. Como costuma acontecer nos sonhos, as aparências eram instáveis, os focinhos dos cachorros esticavam e encolhiam num jogo de anamorfoses que, ora definiam as feições achatadas dos boxers, ora se afilavam feito focinhos de porco, compondo o aspecto típico dos bull terriers.
O curioso é que agora eram as paredes a executar o bailado do pesadelo, tanto se fechavam sobre mim, como se alargavam numa extensão demencial, enquanto o chão ondulava no mesmo diapasão inesperado de concreto movente. Um violento enjôo me atirou numa cadeira de metal, já não podia observar neutro o desenrolar dos fatos: o mal estar turvava-me a vista e a consciência, a cabeça e o estômago giravam, orbitando um ao outro furiosamente. Tudo girava.
Ondas de calor me percorriam, no entanto, sentia frio, um suor frio cheirando a cão assustado colava minha roupa ao corpo. Com a curta capacidade de planejamento restante, antevi a necessidade de atravessar os metros que separavam meu assento do banheiro masculino: nas entranhas convulsionadas uma tsunami se formava ameaçando eclodir a qualquer momento. Temia que a vertigem me derrubasse a meio do caminho, temia o escândalo público de uma queda retumbante no salão de desembarque entre pessoas estranhas.
― Está passando mal, moço?
― Hmm, obrigado, não se preocupe, vai passar. Costumo ter essas coisas em viagem... Estou bem.
A senhora idosa, muito senhorinha na sua combinação de vestido e cardigã de malha leve, devia estar me julgando pela cara. Não desviava o olhar do meu rosto. Invejei seu autodomínio e o colar de pérolas que arrematava sua vestimenta correta, mas, por alguma obscura teimosia, recusei a ajuda que o juízo mais chão recomendaria aceitar. Esperei que fosse embora, ainda a acompanhei se afastando, girava a cabeça para trás na minha direção, incerta de me abandonar à própria sorte. Fui aos tropicões para o toalete, apoiado nos frios lambris metálicos das paredes, rezando para que a pororoca das tripas me poupasse de constrangimentos antes de chegar ao vaso.
No banheiro, felizmente deserto, tive uma pane geral: vômitos, disenteria, e mais suadeira em bicas. Joguei a camisa e as cuecas no lixo, na mochila encontrei uma salvadora camiseta. Só retomei o prumo depois de beber e me lavar na água da pia, ajeitando o visual no espelho imenso do jeito que dava. Tudo estava mais claro, mas o mal estar ainda era tremendo. Voltei ao momento anterior à tontura, no burburinho em torno da esteira das bagagens enxerguei a boa samaritana, acenei à distância, entre agradecido e desejoso de reassegurá-la da minha integridade.
Só então me dei conta de um problema, um grande problema: não lembrava qual era a minha bagagem, pior ainda, não sabia nem quem eu era. Um nome ou lugar, uma profissão, uma família, nada me vinha sobre mim mesmo. Pensei que, quanto ao nome haveria jeito, lembrava de ter guardado a carteira no bolso interno da jaqueta. Pânico: a carteira não estava lá, revirei todos os bolsos e compartimentos da mochila, refiz o trajeto até ao banheiro. Nada. Mas como? Onde teria...?
― Puta merda! O cara do encontrão, ele levou minha carteira!


sábado, 30 de agosto de 2014

Sezefredo Taveira (final)




Nem eu me conheço. Os outros?, só imagino. Cada vez mais me pergunto se deveras aprendi algo com o passar dos anos, e cada vez menos dou por fato consumado as respostas, parcas, que recolho sem método aqui e ali. O mundão é grande e sem porteiras, só a beleza nos salva. Descobri que não é necessário acreditar no belo para ser vítima dele, pois o arrebatamento vem como os terremotos: não respeita feriado ou dia santo, e nem há onde se esconder. Tentar não, fazendo ou deixando de fazer, tentativa não há. Fugir do mundo não protege de quase nada, a não ser do pior e do melhor ― justamente as coisas mais importantes da vida.
As etiquetas e as palavras falham. Devemos desconfiar delas como das verdades reveladas, palavras servem se pensarmos nelas como meras estações de um trem sem parada, nas quais a ignorância pousa brevemente o segredo que a língua vela e descobre. Livrar-se do que excede, livrar-se de si mesmo e permitir que o instante se configure, se instaure pleno, e em seguida desapareça. O existir é poema em fluxo, sua impermanência está no desmanchar constante do tempo, sua essência, no reconhecer-se parte integrante de um ciclo contínuo, uma viagem de fora para dentro repleta de indefinições, mas que ainda assim sugere o recomeço na primavera, a alegria no verão, a introspecção no outono e o silêncio no inverno, numa sucessão infinita e derradeira.
Este é o meu testemunho, a confissão daquilo que o tempo tatuou em mim de uma vez e para sempre, aquele nome, inatingível figura do ar. Muitas vezes, passeando sozinho pelas ruas baldias ou junto ao mar, eu repetia esse mantra sagrado, desfolhava-o na brisa como se fosse um malmequer, juntava de novo as pétalas das sílabas que cantavam mesmo momentaneamente esquartejadas. Sezefredo Taveira!, gritava até perder os bofes, gritava para que os costados dos navios pudessem devolver-me em forma de eco essa primeira lição de poesia, essa interminável soletração do absoluto.
Não há pedra que pense o vento como o vento pensa a pedra. Tenho a dor das conchas extraviadas, uma dor de pedaços que não voltam, eu sou os destroços de muitas pessoas. Em caso de perda, e também em todos os outros, melhor será contar histórias, enquanto as narramos, os futuros se prometem e os passados se acumulam. Só assim é possível abrir as tramas e soltar as pontas amarradas. Quanto ao que restar fechado, não devemos desistir: é importante prosseguir com os contos, libertar relatos, sonhos e devaneios, até que a contraluz de uma fala comece a delinear contornos na obscuridade.
Muitos anos depois, desintegrada a Maceió da minha infância, e já estrangeirado de raízes e paróquias, voltei à curva da rua do Farol. O portão trancado e as janelas vedadas por tábuas sinalizavam a deserção do palacete Taveira, lá dentro, no pomar carregado de fruta madura, a gataria se espreguiçava à sombra de bojudas porcelanas azuis. Metade de um século se passara desde os dias em que o bonde, na volta da escola, nos fazia ver a misteriosa morada do amor, o universo branco e verde estriado de grossas grades negras e manchas róseas. Seus antigos dramas e habitantes já deveriam andar por outra, e mais metafísica, morada. Mas parei diante do portão cerrado, espiei o jardim silencioso, os vasos azulejados, as escadarias de mármore, o azinhavre no ferro das balaustradas. E chamei: Sezefredo Taveira!
Chamei a quem, a quê? Repetia inebriado a fórmula mágica, encantatória, conjurando o fantasma da mulher que em todas as outras mulheres busquei, encontrei e perdi ao longo da vida. Porém, a Rainha dadeira do meu reino maravilhoso de antanho emigrara em arribação de nuvens, transfigurada em legendas de musgo na pedra de cantaria, sublimada no cipó bravo a ingresiar as calhas derruídas do casarão; seu nome para sempre ignorado voou pelos ares como um pássaro, chocou-se contra o costado dos cargueiros de além-oceano, e voltou metamorfoseado em eco aos meus ouvidos, já agora na soberba hierarquia dos nomes que não precisam mais de figura ou anedota, e se tornaram para sempre algo sonoro e puro, deslumbrante e enxuto.


domingo, 24 de agosto de 2014

Sezefredo Taveira (2)


Ignoro se ele era alagoano ou mais um dos muitos imigrantes portugueses estabelecidos em Maceió que enriqueciam no ramo de tecidos, passamanaria, secos e molhados, e terminavam comendadores antes de se retirar para a terrinha. Porém, no bangalô da rua do Farol, na exuberância equatorial do jardim, caminhando pela sombra de árvores tronchas com o mormaço equatorial, havia algo que era a fusão improfundável dos mais faustosos elementos nativos com uma substância remota ― a esposa do Sezefredo Taveira.
O passado é esse animal que nunca termina de agonizar, até hoje me maltrata não ter retido o nome daquela deusa, a jovem senhora que a cidade, uníssona, proclamava adúltera. A mulher do Sezefredo. As coisas sem forma são as mais pronunciadas por crianças: recordo-me especialmente de seus olhos garços, cintilando infixos entre esverdeados e azuis, uma cor na fronteira de céu e mar. Toda vestida de branco, ela se aproximava da varanda do sobrado e seu olhar seguia o trajeto do amante que vinha caminhando pela calçada defronte, pausado, elegante, insaciavelmente feliz.
Quando ele passava diante da varanda, ela lhe sorria, e nesse sorriso, que tornava mais oscilante a cor dos seus olhos, fremia um universo de desconhecidas volúpias, toda a glória da carne à espera. Possivelmente, a memória, com suas tintas falsárias, pintou-a para mim de branco, envolta em sedas e tafetás na antecipação do êxtase vespertino numa alcova misteriosa. A cama larga, de patente, haveria de ter travesseiros altos e rendados e castos lençóis de linho cheirando a alfazema, e não faltaria mesmo um mosquiteiro para resguardar o idílio da investida dos piuns vindos dos mangues e sarjetas.
Inclinando levemente a aba do chapéu chile, roupa de imaculado linho cru e sapatos de duas cores, o amante dobrava a esquina saudando-a uma última vez. Ela se retirava da janela (e da vista da molecada escondida e à espreita), ia dedicar-se aos afazeres domésticos, cuidar do de-comer do marido manso; sumia no interior do sobrado cheio de vasos de flores e bibelôs sobre o piano.
Ninguém perdoava ― embora muitos, silenciosamente, compreendessem ― Sezefredo Taveira por dividir a beleza deslumbrante da mulher, usufruindo a meias (quiçá a quintas) o lânguido pestanejar daqueles olhos garços. Não ousava separar-se dela ou matá-la, apesar da tradição local assegurar aos machos traídos em seus brios pronta absolvição no tribunal do júri, caso resolvessem, como então se dizia, “lavar a honra com sangue”.
Nisto residia o mais arcano aspecto que o mundo confrontava ao olhar e à fantasia de menino: mal podia imaginar como era possível aos adultos viverem na confusa amálgama de putaria e moralismo em que, efetivamente, vivem. Mas é inegável que o arranjo do casal a três bafejou aqueles anos distantes com a doce maciez da infância dos curumins; a mansão Taveira, crivada de sacadas, cegas janelas e vitrais coloridos, em sua rotina devassamente plácida, no balançar das copas das mangueiras e cajueiros do seu jardim com a viração no fecho da tarde, foi assim me ensinando paciente cada rococó da inesperada arquitetura do desejo.
E foram aquelas duas palavras, tão imbuídas para mim de misturados sentidos, que tiveram o poder de extorquir a única opinião política que cheguei a ouvir de meu pai. O grande silêncio gravado na parede da memória, a mudez rombuda e obstinada de papai. Foi na época de uma grande eleição, a nossa casa, normalmente pacata, estava cheia da parentada vinda do sertão brabo; alguém comentou que Sezefredo Taveira declarara publicamente seu apoio à candidatura Góis Monteiro.
― Quem, o corno? Belo incentivo o Silvestre teve, um monte de bacharelismo em papel de jornal... Parolagem!
― Se ao menos ele botar comida nos comícios do Góis Monteiro, já é alguma coisa. Mas rapaz, é verdade verdadeira, fato sabido e havido por certo, a bandalha no palacete do Comendador come solta e sossegada?
― Dizem que ele gosta demais da ingrata; tem o coração mole, é o que é. E depois, fazer o quê, se nos particulares do amor, tudo que não pode, manda?
― Ah, mas não se preocupem, cornos somos todos ― fosse pelo teor da assertiva, fosse por papai ser orador bissexto, fez-se pesado silêncio ― Não se iludam: nas eleições, todo mundo é corno.
― Oxe, mas que conversa é essa, macho velho? E como é isso?
― É simples, na política o chifrudo é o povo, sempre o último a saber.



sábado, 16 de agosto de 2014

Sezefredo Taveira (1)




Em nossa casa havia muitos livros em prateleiras que alcançavam o teto, raros tinham o dom de interessar-me. Meu pai costumava trazer para casa grandes livros negros com lombadas de pano ― livros-caixa, anuários, registros de fretes e notas fiscais ― e passava as noites em silenciosos trabalhos de contabilidade. Eu deixava-me ficar ao seu lado na mesa da sala de jantar, e terminava sempre dormindo, a cabeça apoiada no vértice superior do triângulo formado pelo braço direito.
À meia noite, ele interrompia as contas e cálculos, fechava os livros, armava-se de um revólver, e saía sob o céu estrelado para dar três voltas de corrente no cadeado do portão. Vez por outra, era despertado pelo tiro para o alto que ele costumava dar de aviso aos ladrões ― os gatunos desafiavam a vigilância dos cachorros Dito e Zorro, vezeiros em roubar galinhas do quintal dos fundos.
Quase nunca encontrava o que queria nas estantes abarrotadas. Lembro do The Story of the Romans, de H. A. Guerber, da Geografia Ilustrada do Brasil de Borges dos Reis, livro cuja maior atração eram os mapas coloridos, além de inúmeras obras sobre direito e leis, que não diziam nada a quem vivia à cata de histórias de fadas, relatos de aventuras, mistérios e crimes. Muito raramente, Florencinho, meu primo, trazia exemplares do Tico-Tico e folhetos do Nick Carter.
Em revistas antigas, como Eu sei tudo, encontradas na casa de tia Dora, mãe do Florencinho, eu agarrava novos retalhos desse mundo evanescente. Isolava-me, lia, e as fotografias em sépia, cor de cinema, ampliavam ainda mais o milagre daquelas páginas. Uma constelação de palavras encantadas fulgia na minha infância gris, além dos galhos floridos da paisagem, no claro do céu azul, embaixo do sol grande. Eram palavras azuis como o anil das lavadeiras, navios brancos, iguais às nuvens boiando acima dos negros anuns em revoada.
Swaíli, Bessarábia, Guatemala, Mississipi, Tasmânia, Macunaíma, Pajuçara, Fernão Velho, Trapiche da Barra, Ponta da Terra.
Mas não havia nome para tudo. Nomes de lugares, nomes de pessoas, nomes de nomes, palavras sem pele, despojadas de toda a sua carga de história, mais figura que acervo, catálogos do aleatório, índices de chuva e pedra, efígies abstratas. As coisas tinham nomes, mas que nome poderia eu dar a certo momento veludoso e odorante, ao minuto em que só havia maresia e gaivotas no ar, as notas distantes do piano de vovó, a assuada dos moleques em torno do quebra-pote nas tardes de domingo? Um dia seria preciso, adivinhava, inventar palavras, seguir as indicações perdidas do velho mapa dos piratas para desenterrar do sótão a arca empoeirada, e, então, retirar dela amorosamente o inestimável tesouro do novo.
Na ganga bruta daqueles tempos nímios se aderiu um nome, Sezefredo Taveira, morava na rua do Farol, no final, onde o bonde fazia a curva de volta para o centro. Os muros brancos cercando o quarteirão semi-escondiam o sobrado, também branco, que aparecia por entre as grades e as pinhas do portão. O palacete branco exalava riqueza, luxo, secretos esplendores. Além dos balcões fechados, mudas venezianas e sacadas, impregnado nas estatuetas de mármore espalhadas pelo jardim musguento, daquele universo de opulência e finos azulejos transudava constantemente o perfume do rosmaninho, das dálias e do jasmim em flor.
Era o palácio de Sezefredo Taveira. E esse nome, ao qual sou incapaz de ligar um rosto, uma pessoa, ocupou toda a minha infância com a sua magia, era o preâmbulo das encantações, demorava-se no meu peito como uma bolha de sabão, para se estilhaçar em solfejos no ar eternamente perfumado pelo Oceano. E assim Sezefredo Taveira era apenas um nome: a belíssima sonoridade de um caco de mitologia, uma flor alienígena que, no lugar de pétalas, possuía sílabas.


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Blecaute (final)


A morte não dói no morto, mas nos outros ― com a estupidez passa-se o mesmo. A consciência é o enganche: faz nascer o eu, ainda que ao preço de o fazer sofrer. Mas não acontece de inventarmos apenas um eu, inventamos sobretudo os outros.
A roda travara. No meio do círculo de famintos, Bob e o menino não tinham como fugir, o pai, postado a dez passos do limite externo do grupo, mantinha a arma engatilhada. Ninguém se atrevia a dar um passo. Ninguém recuava. Os olhares de todos relanceavam de um para o outro em busca de alguma reação.
Evitavam desencadear a tempestade sabendo que ela viria, certa e segura.
Cedo ou tarde.
O problema é que quem fizesse o primeiro movimento chamaria para si fatalmente o ataque inicial. Havia uma flecha e um tiro engatilhados que dificilmente errariam seu alvo, o bando estava desarmado, mas certamente massacraria os autores dos disparos aproveitando a superioridade numérica.
“Gente, temos comida suficiente pra todo mundo. Será que não podemos resolver esta bagaça na boa?”
“Cala a boca Bob! Será que você ainda não esgotou sua cota de tosqueiras por hoje?”
“O rapaz tem razão, dividam sua comida conosco e ninguém precisa se machucar”, o gordinho líder da horda assumiu um tom conciliador.
“Aí maluco, meu acordo é o seguinte: vocês dão o fora e ficam todos vivos, se resolverem arriscar alguém vai se dar muito mal... Quem vai querer tirar a sorte grande? Pensem bem”, ele mirou a espingarda bem na cara do pica. A bandeira branca acabava de ser arriada.
Imperceptivelmente começaram a se mexer, arrastando os pés com cautela como se pudessem abandonar o impasse de maneira gradual. Queriam chegar à omelete sem quebrar os ovos.
“Que foi isso?”
Neste exato momento disparou um charivari de alarmes e ring tones de celular, bafafá desconcertante e cacofônico em franco desacordo com os ruídos da floresta. Ninguém conseguia localizar a origem da barulheira, até que o Bob sacou o celular do bolso.
“Ih, rapaziada, é o meu, deixei ligado just in case. Nossa, a internet voltou, tá chegando uma pá de mensagens... o apagão acabou!”
Um silêncio constrangido se instalou na cena. O círculo se desorganizou. Ele abaixou a arma, no que foi imitado pelo filho.
“Bom, é, acho que podemos dar um pouco da comida pra vocês... Ei! Vocês estão indo embora?”
O ex-líder do grupo ainda se virou pra responder, os outros simplesmente sumiram pelo mato.
“Não precisa mais, vou pra casa. Todos vão, acho. Agora é voltar cada um pra sua vida. O futuro já não é mais o que era.”