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sábado, 20 de dezembro de 2014

Cele... brisou (3)



Mas, como assim, eu mesmo?
Consultava as fotos, visitava a home page, relia uma vez mais, e outra, e nada de entender, continuava na roça. Era como se, em determinado ponto da história, a própria história puxasse os cordões dos sapatos e saísse voando, e ao tocar no solo novamente, voltasse ao chão corriqueiro dos efeitos com causas, mas ainda sem explicar o vôo do pavão misterioso.
Os fatos: há coisa de uns 6 meses, comprei e instalei um aplicativo de gerenciamento de perfil em mídias sociais, o CELEBRIZOU, teoricamente, seria um app para unificar a minha comunicação via notebook, celular, ou tablet, em cada uma das ações dentro da rede, na prática, botei pra dentro da existência virtual um maldito de um vírus que ameaçava destruir meu dia a dia real.
Depois de uma espera surpreendentemente curta ao telefone no serviço de atendimento internacional ao cliente, consegui alguém que falava a minha língua. Ou quase isso. O provável indiano que me respondia do outro lado da linha dava pita de ter aprendido o português de Portugal, o que lhe conferia algum preciosismo na forma e reforçava o estranhamento da expressão.
― Então, a situação está neste pé que acabei de lhe relatar, senhor...?
― Julian.
― Pois bem, Julian, gostaria de saber o que a sua empresa me recomenda fazer diante disto que lhe contei.
― Caro cliente, a CELEBRIZOU fica muito honrada por nos ter escolhido para gerir suas identidades na rede mundial, nossa principal expertise está em posicionar sua marca pessoal no mercado, mas, como consta do contrato de adesão e dos disclaimers que o senhor...
― Por favor, cut the bullshit, pode ser? Já conheço toda a babiagem de vocês, eu quero é saber como é que desenrola essa fita. Em nenhum lugar está mencionada uma possibilidade assim.
― Com efeito, é singular, mas nem chega surpreender tanto: o nosso produto é um software de inteligência artificial, ele evolui, aprende com o estilo de cada usuário e, com o tempo, ganha um certo grau de autonomia na tomada de decisões.
― Ha, um certo grau?, como piada é excelente, sensacional! Amigo, deixa eu te repetir, tem um cara sinistro me seguindo pra todo lado que eu vou.
― Entenda que nós visamos proporcionar um melhor desempenho na condução de uma persona pública coerente, construtiva e socialmente adequada. As pessoas se arreganham nas redes sociais sem o menor media training, é um perigo que o façam sem orientação, nossa empresa busca diagnosticar, corrigir e prevenir o dano à imagem que tantos se auto-infligem inadvertidamente...
― Todos brisam na celebridade ao alcance de todos, já entendi a ladainha.
― O que deveria ser vida privada, hoje é território público, a grande maioria não leva isso em conta, nos esquecemos rapidamente da “eternidade” e da permeabilidade da internet: sempre há rastos, registros, logs. Veja o seu caso, por exemplo, seu perfil é de um executivo da propaganda, realiza eventos na área de sustentabilidade, e tal, tudo isso condiz pouco com aquelas suas escapadas na Deep Web...
― Aonde está querendo chegar com essa conversa? Seja mais claro.
― Só uma demonstração da abrangência do nosso gerenciador de personalidades. O seu app CELEBRIZOU corrigiu esse probleminha, deletou o navegador Tor do computador pessoal e ajudou-o a emergir para fora do ambiente empesteado da dark net: drogas, lavagem de dinheiro, cartões e documentos hackeados, armas, pornografia da pesada, etc.
― Tá, tá, já captei que vocês são os maiorais, the foddest ones, agora conta pra mim o que você vai fazer concretamente pra me ajudar. Ninguém daí consegue desativar o programa remotamente? E mais, dá pra desinstalar essa porra desse cara da porra da minha vida?
― Não é possível, hãm, o software aprende a desativar os comandos do controle à distância.
― Fabuloso, então você está me dizendo que vende produtos que perdem o controle?
― Posso afirmar-lhe que os nossos produtos obedecem aos mais rigorosos padrões normativos e são projetados com o estado-da-arte da tecnologia informática. O seu avatar pode ter se desenvolvido demais porque o senhor já trabalha com meios de comunicação e...
― Ok. Uma última pergunta: Julian, você é um robô?
A ligação caiu na hora.


domingo, 14 de dezembro de 2014

Perivaldo e Cecivânia #7



E então ele desenrolou o fio tortuoso da sua história, até à ponta do pavio atual que ameaçava explodir o paiol. No meio de tudo aquilo, como a porta do Titanic boiando no mar frio (foi o melhor que conseguiu pensar no momento), havia ela na sua vida, a última esperança antes de ir dormir na rua. E o mais incrível, apesar de ter estragado as guirlandas e arranjos do momento que ela fantasiara tanto, apesar de ter feito a declaração de amor mais bisonha da história da humanidade, foi Ceci ter acreditado imediatamente nele.
Ela intuiu, ou pressentiu adivinhando, lá no fundo do rapaz assustado e trapalhão a mais descarada sinceridade, naquele rosto que começava a amar podia ler uma mensagem ainda não compreendida, mas que inaugurava nela uma necessidade desconhecida e perigosa. Peri abria-lhe o coração, dizia as verdades todas de uma vez, com pressa e atabalhoamento, sem vírgulas, pontos, ou parágrafos, porém com todos os pingos nos is. Nunca tinha conversado assim com um menino, tantas vezes pensou que isso nem era possível.
Bolou um plano maluco. Ceci despediu-se das amigas e os dois se mandaram pra Freguesia do Ó: metrô, ônibus, lotação e um pedaço de ladeira a pé. No caminho combinaram a história longa e cabeluda que contariam à mãe dela: depois de muito vai e vem, no final, Peri era de um grupo de dança de Goiás, que precisava ficar hospedado na edícula desocupada pelo tio recentemente. Só por uns dias. Problema mesmo ia ser dar a volta no Aristeu, seu padrasto, um encostado que a mãe cometera a besteira de trazer para dentro de casa.
Só que os russos não estavam combinados, e eram tudo alemão: a mãe da menina virou onça, subiu nas tamancas, e deu um siricotico de acudir vizinho recusando a idéia brilhante da filha sem noção. Na sala do sobrado, o padrasto ficou só de canto, deixando o circo pegar fogo, calmo, a lixar as unhas, tomava seu cafezinho açucarado casualmente, à espera de meter seus pitacos na conversa. Peri teve de aguardar a decisão do conselho familiar no quintal, dali, ouvia angustiado a cuíca roncar lá dentro.
― Fora de questão, minha filha, nem morta! Só por cima do meu cadáver é que você vai me trazer um moleque, que eu nunca vi mais gordo nem mais magro, pra morar nesta casa. Pode tirar seu cavalinho da chuva, Cecivânia!
― Mas mãe, o Peri é um dançarino conhecido, ele se apresenta direto, vai ser uma turnê curta. E depois, ele é amigo há uma cota, faz um tempão que tá no meu Facebook...
― Ah, bom, agora eu posso realmente ficar sossegada: vocês se conhecem do Face! Puxa, ainda bem, tava quase ficando preocupada! Você sabe lá o que tá falando, trazer alguém assim, que nem conhece direito?
― E você também não trouxe alguém pra morar com a gente?
― Você me respeite, Ceci, uma coisa, uma coisa, outra coisa, outra coisa! Cheirou meia, foi? Depois que fiquei viúva de seu pai me dediquei anos a te criar, agora é a minha vez de ser feliz com uma pessoa que eu sei muito bem quem é. Não achei na rua, não.
― Bom, sempre se pode dar uma pesquisada, esse cara tem algum documento? ― Aristeu remexia o café displicentemente, bicava o melado do fundo da xícara na ponta da colher ― E os pais dele, não podem dar uma telefonada pra sua mãe?
― Ele não... é órfão, só tem a mãe, acho que ela tá... ocupada demais. Mas, escuta, vocês tão achando o quê? Gente, só trouxe um colega da dança pra passar uma noite, ele tá sem mala, inclusive. Será que os valores cristãos que você tanto me fala, mãe, servem pra quê?
A discussão foi braba, mas no fim, Ceci conseguiu da mãe a autorização para que o amigo ficasse na edícula, mas trancado para fora da casa. Aristeu insistiu para ver os documentos dele, o que deixou o moço bem cabreiro. Peri não bateu o santo com o dele de primeira, o padrasto da “sua” mina tinha a maior chinfra de X9, tremenda cara de P2. Foi pra cama mais tarde torcendo pra estar enganado.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Cele... brisou (2)


“Seu” Jamil tinha cara de tudo, principalmente daqueles tiozinhos que organizam a fila na Disneyworld, menos de um detetive de “renomada capacidade e testada eficiência” como constava na biografia do seu site. Praticamente calvo, tinha o cacoete de esticar os raros fios de cabelo com gel, a impressão era de que um hipopótamo acabara de lhe dar uma lambida desde a testa até à nuca. A pança rotunda, a pele escalavrada, o terno marrom, a careca mal assumida, tudo nele conspirava para conferir-lhe a aparência puída de um contador interiorano. Mas o meu James Bond com físico de jogador de baralho cobrava honorários de advogado pica-grossa: recebia por hora e garantia a solução da pendenga em um prazo máximo de uma semana.
― Andou comendo a mulher de alguém? Não? Inimigos no trabalho, processos, ex sócios, ex mulher ou ex namorada rancorosa, herança em disputa, deve dinheiro na praça...?
― Não, nada disso. Já rachei o coco pensando em algumas dessas hipóteses, minha vida não é de fortes emoções, doutor Biscaia. Pra mim o cara é pancada, doidão mesmo.
― Todo mundo é meio detraqué, ao menos um pouco, menos os normais, que são hipócritas. O nosso contrato vai até onde diz respeito à vida do elemento: onde mora, o que faz, e, principalmente, por que está atrás do senhor. Se depois disso quiser dar um susto nele, já não é comigo, embora possa lhe indicar pessoas de minha confiança para o serviço.
― Bom, espero não precisar chegar a esse ponto...
Tão logo deixei o escritório do detetive particular, recebi o telefonema da minha namorada, Liríope, a Lira, uma mulher encantadora que odeia o nome que os pais lhe deram, me entende pouco, mas em compensação me ama muito. Acabara de chegar de viagem (aquela mesma na qual não embarquei), estava louca de saudades e queria me ver. Tomei o rumo do bairro dela, Moema, que àquela hora parecia ser o lugar para onde o mundo queria ir.
O inferno cotidiano do trânsito da metrópole. Liguei a rádio, nas ondas da freqüência modulada rock gospel e as notícias mundo-cão: um psicopata saiu atacando pessoas aleatoriamente, havia tatuado no corpo o número de vítimas que pretendia matar. Menos mal que o pararam a um terço do objetivo. Mudei a estação, melhor evitar aquela trilha de idéias, buscar uma egrégora mais positiva antes de encontrar a Lira, até podia antever a cena: ela, com uma taça de vinho na mão, desfazendo a mala, entregando-me presentes, contando mil pequenas histórias que só ela sabia tornar engraçadas ― tudo isso enquanto fazia um macarrão simples e gostoso.
― Como assim você acha que eu estou indo longe demais nessa história?
― Simples assim: você tem andado um pouco too much, tigrão. Sei lá, pode ser só uma coincidência, você encontrou o cara em dois, três lugares, e encanou na onda da perseguição...
― ... dois, três, lugares? Lira, meu bem, esse xarope tem me seguido em todos os lugares onde eu vou. Você achar que é uma simples coincidência, encanação, isso sim, é que é meio sei lá... Se um cara, ou uma mulher que fosse, te seguisse pra todo canto, você não ia achar que tem algo errado?
― Sim, mas daí você chamou um policial, agora, é o detetive. Onde isso vai parar? Sabe o que eu acho que está acontecendo de errado?
― Por favor, não me esconda nada, afinal, já tô até pagando por essa informação!
― É que tá dando tudo certo pro teu lado: você tá bombando como publicitário, é jovem, bonito, cara, você leva a vida que muitos sonham.
― Hmm, certamente eu estou com a garota que todos gostariam...
― Tá vendo só? Até nisso você tem sorte: é ligeiro, bem humorado, tem tudo a seu favor. Vai ver sente culpa pelo privilégio e por isso é que precisa ficar inventando algum problema que poderia rasgar teu bilhete premiado, quebrar as esferas do dragão.
― Putz, Lira, você consegue ser fofa até quando me esculhamba. Impossível ficar bravo com você. Quer dizer que, pra você, eu estou procurando pêlo em ovo?
Três dias depois de ser contratado, o doutor Jamil Biscaia me procurou: caso encerrado. Só não dava pra acreditar, mas estava tudo lá, numa pasta com fotos, páginas impressas, relatórios e dados explicando e comprovando tintim por tintim.


sábado, 6 de dezembro de 2014

Perivaldo e Cecivânia #5



Não teve dois nem três, Peri saltou de banda e saiu de fininho do esquema dos malucos da Roosevelt. Ali não tinha nada pra ele. Tava com sono, noiado, em todo lugar via rostos conhecidos, e conhecidos davam pista, falavam, davam pala pros bandidos virem catá-lo e metê-lo no paletó de madeira. Não tinha feito nada, não era justo morrer tão jovem. Pôs os fones no ouvido.
Morre negra, morre jovem, morre gente da favela
Morre o povo que é carente e que não passa na novela
28 de Setembro não é só mais um
É dia de luta, não é um dia comum
Direito imediato, revolução de fato
Protesto na batida, ventre livre de fato
Embicou pelo túnel da Radial, seguindo maneiro na estreita calçada margeando o rio de carros, daí caiu pra saída da Rui Barbosa e foi subindo a Treze de Maio até virar à esquerda, bem na altura de pegar o viaduto da Beneficência Portuguesa e chegar suadão no Centro Cultural da Vergueiro. Um upa do carai. Sentou num banco, pra desbaratinar a sede, tomou umas goladas do squeeze de plástico desbotado. Esperou por ela balançando o skate com um pé e marcando a batida com o outro, no corredor onde montou campana, paredes de vidro assentadas na estrutura de concreto serviam de espelho para uma variedade de trupes e grupos ensaiar suas coreografias.
Vai dizer que não sabia?
Vai dizer que é engano?
E ela chegou chegando, causando ― Peri sentiu o terremoto surdo de reações à sua volta ―, os passos ritmados, saracoteando os dreads, criando a cadência como quem evolui em vez de andar, muito negra, linda, na sua roupa descolada a delinear um corpo esperto e flexível, no qual cada movimento parecia se resolver na máxima extensão da leveza e da graça. Aquela menina parecia ter recebido no berço todo o tabuleiro da baiana de qualidades, adivinhava-se imediatamente nela a imponderável mistura de inquietude, sorte e confiança daqueles em que o dom se manifesta sem deixar dúvidas.
Ceci transpirava a beleza bravia, a fúria multicolorida do dragão, e ainda vinha muito samba no pé. Já tinham trocado uma idéia, e até ficou no ar um interesse mútuo, mas sempre se sentira um pouco muito intimidado diante dela.
Pra azar do garoto, o Sweet Nightmare estava na vibe de ensaiar bastante naquele dia, lá estava, lá ficou, ouvindo um som, balançando o pé, devorando a mina com o olhar muquiado pelos óculos escuros comprados no camelô. De vez em quando fingia checar alguma coisa no celular, puro migué, o dele não era espertofone. Haviam se conhecido ali, um dos poucos lugares que ele freqüentava na cidade, ponto de encontro de dançarinos jovens em busca de espaço na cena; pertenciam a tribos diferentes, e ele sacou que as diferenças não paravam no estilo: a mina era bem tratada, roupas e acessórios de marca, enfim, não devia ser burguesinha, mas batata que não era favelada como ele.
― E aí, seu grupo não veio?
― É, tá com jeito que ninguém vai colar hoje...
― Hmm, pelo menos tira esse bico da sua cara, cê tá meio estranho, não? ― ela percebeu a dificuldade dele e resolveu aliviar ― Desculpa, tô fazendo um monte de perguntas idiotas.
― Não existem perguntas idiotas, só respostas. Suave, tô de boa.
“O amor é sempre a resposta, não importa qual é a pergunta”, ela pensou, mas não disse.
― Você... já acabou?
― Bem, acho que ainda vamos rever a filmagem, mas já tá bem redondo, não achou?
― É, sim, você tá muito bem.
― Não perguntei de mim, mas do grupo...
― Então, é que... na real eu tô precisando levar um particular com você, um papo reto. Faz tempo.
― Bom, só se for agora. Tô aqui, agora, tu não pode é querer que eu fale por você. Desembucha logo, não gosto de mistérios. Você tá a fim... de mim?
― Não, quer dizer, sim, ou melhor, também... mas isto nem é o mais importante...
― O que é que pode ser mais importante que isso??
― Não, não era isso que eu queria dizer.
― E o que você queria dizer então?
― Ceci, eu juro que tô limpo nessa, sou trabalhador, faço correria de motoboy pra ajudar minha mãe de coração e nem tenho carteira, mas é que tô num puta angu de caroço, me cagüetaram...
― Fala logo, criatura, tá mais arrastado que novela das oito!
― Então, meu, fizeram minha caveira pros broder da facção, não posso voltar pra casa. Tô na roça, não tenho família. Será que cê sabe onde eu poderia dormir, só por hoje?


sábado, 29 de novembro de 2014

Cele... brisou (1)



            E então lá estava ele: rebolando na pista, uíscão na mão, indicadores apontados para o alto, chacoalhando ostensivamente a pulseira VIP, tirando selfie com o DJ, pagando de rei do camarote; estilo vacilante entre o coxinha-roupa-de-shopping e o bagaceira P.I.M.P. Sabe o tipo de sujeito que grita “Uhu, partiu balada”?
            Vergonha alheia total.
            Foi a primeira vez que me dei conta da existência daquele cara, o energúmeno passou a ser figurinha carimbada em todos os lugares onde eu andava. Saía do trabalho, lá estava o mala, descia do elevador, dava de cara com ele, no vagão do metrô, na sala de espera do analista, no estádio assistindo o show de rock, correndo no parque, bem atrás de mim na fila da lotérica, em todos os cantos acabava por encontrar aquele chiclete grudado no pé.
            Quem não ficaria noiado no meu lugar?
            Prestei queixa à polícia ― só consegui foi criar um mega enrosco. Pra começar, não era claro o local, uma vez que procurei a delegacia mais perto da minha casa e não a correspondente à ocorrência (que eram várias), depois, havia o problema muito mais fundamental de não haver crime algum. O pentelho não fazia nada, não me abordava, não ameaçava, nem sequer se dirigia a mim. Apenas não faltava, nunca.
            Até que achei um policial com saco pra perder meia hora comigo. Acompanhou-me a um bar nas imediações da delegacia, dez minutos, e pimba!, o feladaputa apareceu todo fagueiro no pedaço. Aceitou a prensa surpreso mas sem reclamar, apresentou documentos, foi revistado, tudo nos conformes. Um cretino acima de qualquer suspeita: não tinha capivara, registro cível e penal limpos.
            Nada a fazer, meti a viola no saco.
            ― Mas você não acha estranho um caboclo gastar tempo seguindo os passos do outro, assim, do nada?
― Amigo, na boa, a polícia foi até onde pode ir neste caso. Intuição minha, sossega que o louco é manso, no máximo um viado obcecado por você. Daqui a pouco ele desimpregna, vai azucrinar outro.
― E não pode obrigar esse freak a fazer um exame de sanidade mental? Isso não pode ser normal.
― Faz parte do direito de ir e vir. Se fôssemos obrigar todo cidadão a fazer uma coisa dessas, não saía ninguém de casa, moço.
Bom, as coisas estavam nesse pé quando topei com a figura na fila de embarque do vôo que me levaria para merecidas férias. Aquilo foi demais. Num relance, vi toda a estadia em Las Leñas com aquele papagaio de pirata colado em mim pra cima e pra baixo, a vista pretejou, depois tingiu-se de uma névoa vermelha, e foi aí que parti pra cima dele. Dei-lhe uns bons pares de chutes, pescoções e muquetas a esmo antes que três passageiros me contivessem derrubando-me no piso numa cena grotesca.
― Me solta, me solta! Vocês não sabem o que eu estou passando por causa desse panaca, me soltaaa!
Fuzuê completo no saguão lotado. Delegacia (de novo), depoimentos, acareação, etc., no fim do imbróglio, o agredido não quis registrar queixa-crime, queria tão somente embarcar na sua viagem e esquiar com os amigos! Não achei tão mal: não houve abertura de inquérito, podia transferir a viagem e adiar as reservas de hotel pra baixa temporada, e ainda ganhava uns dias pra pensar sem aquela sarna.
Era uma porra de um pesadelo.
Pago imposto, respeito as leis, pego no pesado, e, na hora de garantir o repouso do guerreiro, tudo que o Estado me oferece é o risco de ser indiciado por agressão. E ainda tenho que agradecer porque saiu barato pro meu lado. Foi quando rolou o insight: no fundo, como em tudo mais neste país, se eu queria um serviço bem feito ia ter de botar a mão no bolso. Contratei o detetive Jamil Biscaia, um investigador aposentado do Garra pra desenrolar essa fita.


sábado, 15 de novembro de 2014

Perivaldo e Cecivânia #4



Ajeitou os fones no ouvido, puxou as calças ― inutilmente ― para cima, e saiu à direita na Ipiranga só quebrando de levinho o skate na contramão dos carros. Pra desbaratinar a linha reta ia dando uns flips, backside, frontside, contornou na Praça da República saltando os buracos do asfalto com ollies cabulosos. Tudo à sua volta estava em movimento, os carrinhos de papelão, os homens-placa, as pombas, sacos plásticos voavam, as pessoas iam ou voltavam de algum lugar, desciam do ônibus, entravam na lotérica, paravam pra comprar amendoim torrado. Parecia que todos tinham seu lugar no mundo, caminhando para destinos conhecidos, protegidos por Deus e abrigados num lar. Menos ele, que não tinha feito nada errado, a não ser nascer.
Precisava parar, pensar, mas como, se estava com a sua mente até às tampas de pensamentos avulsos e o corpo atochado de adrenalina? Não podia dormir uma segunda noite no mesmo muquifo, isso era certo, qualquer ligação com a sua comunidade tinha de ser cortada. Muito zoião por aí. Precisava encontrar alguma coisa, alguém. Lembrou dos broders da Roosevelt, numa hora dessas devia ter vários deles por lá quebrando geral nos gaps, rampas, escadas e palcos da praça preferida dos skatistas de street. Não deu outra: molecada tava lá tocando o terror no concreto. Sentou num canto, ouvindo os versos da MC Luana.
Nasceu! Mais um fruto do acaso
E o mané que não quer nada,
O sobrenome é descaso
Uma gravidez indesejada, mesmo com a prevenção
Não importa sua crença ou religião
E imagina, de uma forma perigosa e clandestina
Como é que vai fazer para mudar a sua sina...
Pois é, como fazer pra mudar a sua sina? Tinha a impressão de que o tempo havia acelerado como em um filme, era louco pensar que nunca atentara para o tempo, a substância inquieta e fluida de que a vida é feita, essa coisa sempre outra, mutante, indecifrável. Peri atravessava um mistério a cada minuto, enigma não resolvido que logo escapava, substituído continuamente por outro quebra-cabeça mais novo e aterrorizante. Tinha caído na corrente de um rio sem fim, a história se repetia, é verdade, mas também se transmutava, cambiando microscopicamente, imperceptivelmente, até que o instante passava deixando a certeza de que nada seria como antes. Nascer é muito comprido.
― E aí moleque, tá aí de canto, mocosado, que é que tá pegando, Peri?
― Fala, Bugalu! Tô de boa, mano, só no varial...
― Então bro, cai dentro, bora lá fazer umas manobra. Ou vai ficar aí só de rosca?
― Ih, mano, tô piano hoje, mó caô, uma roubada federal. Escuta, tem a manha de me arrumar um canto pra mim dormir, só por hoje?
― Putcha vida, irmão, lá na goma nem rola. Minha irmã mudou pra casa com bebê, cunhado e o carai, eu mesmo tô dormindo no chão da sala. Sem chance.
― Pô cara, desculpa chegar assim de pé na porta, é que... meu perrengue é sinistro mesmo.
― Mas qual que foi? Tu comeu a mãe do guarda?
― Nem zoa, Bugalu, a resenha é mais cumprida que a Estrada do M’Boi Mirim, o caso é que emprestei a cabrita prum broder que ficou de conversa com gambé, e agora o gerente lá da minha quebrada tá achando que fui eu que cagüetei a firma.
― Caraca, véio, sujeira fodida! Esses cara do movimento não deixa frango engordar pra galo, já mata no ovo.
― Pois é, véio, nego me encomendou e não tenho como explicar que focinho de porco não é tomada.
― Seguinte Peri, esses pela-saco daí fizeram uma entera pra comprar uns bagulho de comer e refri. Tó aí mano, uma garça, contribuição nossa pra tu ir se virando por enquanto.
― Opa, já ajuda. Brigadão mesmo. Vou sair fora, valeu irmão.
― Peraí meu, onde cê tá indo criatura?
― Nem sei, só não quero ficar aqui batendo cara, eu que não vou dar mole pra kojak.
― Então Peri, em vez de ficar pasmando por aí, por que tu não cola lá na Vergueiro? Cê tem umas parada lá com o pessoal do break, que eu tô ligado.
― Somente! Hmm, daqui pra chegar lá é dois palito... Ei, Bugalu, mais uma coisa: tu nem me viu, firmeza?
― Nem precisava falar, vai pela sombra pé de chumbo ― o garoto deu um spin de 360 graus e acelerou na direção de um corrimão que ele desceu deslizando a prancha no aço escovado.


sábado, 8 de novembro de 2014

Perivaldo e Cecivânia #3



Ele sempre soube que era negro, neguinho, urubu, boneco de piche, tiziu, tição, chiclete de onça, sempre percebeu os olhares atentos dos seguranças, as perguntas dos porteiros, as inevitáveis entradas de serviço, a espera com a pizza atrás das grades de edifícios onde nunca poderia entrar. Sempre soube que era adotado e que dos seus pais não poderia esperar nada, todos os dezessete da sua vida tinham sido uma segunda chance. Não era para ele ter nascido, nascido, quase não sobreviveu, crescido, agora se via na obrigação de cair no mundo de uma hora para a outra. O que Peri nunca poderia saber é que também ele se tornaria um negro fujão como Zumbi, mais um.
Nunca mais esqueceu aquela noite: doze de agosto, o ano ele não lembra porque ainda era muito pivete. Ele assistia ao Supercine, o filme tinha Tom Hanks na comédia Será que ele é? No intervalo, uma mensagem em vídeo interrompe a programação. Um homem encapuzado usando colete à prova de balas diante de uma bandeira que dizia: “O PCC luta pela injustiça carcerária. Paz e justiça”. O homem é negro, ou quase, como quase todo mundo na sua quebrada, ele fala das prisões, os depósitos dos humanos sem direitos, explica que a guerra não é contra a população, os inimigos são o Estado e o seu braço armado, a polícia. Ele termina com uma frase encarando a tela: “A luta é nós e vocês”.
Paz, justiça e liberdade, era o lema deles, repetiam como um refrão de rap. Peri descobriu no espaço de uma noite que não terá os dois primeiros, que só lhe sobrou a correria pela sua liberdade. Escapou mocosado na mala do carro de uma voluntária da ONG que ensinava teatro, dança e capoeira na favela. Dormiu numa ocupação da Barão de Limeira no centro da cidade, e saiu no dia seguinte para procurar outro lugar para ficar. Um dia luminoso e pachorrento de domingo começava na metrópole que não se importava com ele, as pessoas iam e vinham pelas ruas despreocupadamente.
Tentou parar de raciocinar, tentou parar de pensar que estava tudo errado: os bandidos lutavam pela justiça, enquanto a justiça lutava pelos ricos. Vocês? Nós? De quem é a luta? Quem são os mocinhos? Quem são os bandidos? O que ele sabia é que, no final, sempre o poderoso esmaga o fraco. Deslizava no seu skate carregando a mochila nas costas, bonezão de pala cobrindo o rosto e a carteira com dez reais enterrada no bolso da calça larga. Não tinha a menor idéia do que deveria fazer a partir de agora. A porra tava toda errada. Tudo.

As duas meninas haviam ensaiado a coreografia à exaustão, cansadas, deixaram-se cair na cama ainda acompanhando no tablet o clipe do Chimera Dance Cover. Os vídeos da música conhecida como K-pop, o pop coreano, rolavam na TV instalada no típico quarto de adolescente, grupos com nomes como Block B, Wide Vision, SHINee, 2NE1, Winlock Dance Crew, D.I.V.A., Tiny G, B2, Sun Mi, além do inimitável Psy.
― Zica monstra, amiga, zica monstra. Desculpa falar, mas esse mino tem a maior cara de encrenca.
― Por quê? Só porque ele é pobre? Qual é, Sandrinha, se for assim nós também não somos da burguesia...
― Ah, Ceci, a Freguesia não é a mesma coisa que o Capão, aqui é bairro, não é quebrada. Lá onde esse Peri mora, jacaré toma água no canudinho de medo de piranha, fia.
Caía a tarde. A menina admirava o estilo bem próprio de Ceci se vestir edançar, os olhos grandes e amendoados, o rosto moreno rosado, os lábios carnudos, os longos cabelos arrumados em dread locks coloridos. Na verdade, ninguém conseguia evitar um certo despeito diante da beleza de contornos tão definidos quanto suaves da amiga, que lhe parecia uma mistura de Rihanna com Beyoncé. A delícadeza da negritude somada à graça desdenhosa do índio.
― Então, as meninas tão aqui me cobrando, borá lá no Centro Cultural ensaiar?
― Certeza. Vai que o grupo dele também cola lá pra ensaiar...
― Até o nome que escolheram é zoado: Black tipo A!
― San, eu adoro o nome do nosso grupo: Sweet Nightmare, doce pesadelo.