Seguidores

sábado, 21 de dezembro de 2013

Leviathan melanophyllus (#3)


― Cê tá bem aí atrás, Dárius?
― Só alegria. Os totós até já tão tirando no palitinho quem vai ser o primeiro a deschavar nóis!
― Cara, tô dando tudo, tô enfiando o pé na tábua, mas esta bagaça tá cheia demais pra correr!
― Suavão, Pernilla, meu negócio não é dar volta de charrete na pracinha, tá bom pra espantar o sono.
Pouco depois de uma lombada, a passagem estava obstruída pelo duplo desabamento de um poste de iluminação arrastado ao chão na queda do alfeneiro da calçada oposta. Do lado da raiz a passagem era larga o suficiente para um veículo e meio, passaram, a confusão no afunilamento da massa de perseguidores valeu-lhes preciosos metros de vantagem. Os veículos emparelharam novamente, sempre fugindo na direção do morro.
― Como é que tá aí, Nilla?
― Tranks, chefia, o chato é que, na subida, esta banheira anda bem menos...
― E você, Dárius, algum machucado?
― De boa. Só que gastei as biribinhas todas nos pulguentos.
― Tamo com sorte, olhem lá adiante... ― Rebeca chamou a atenção para o alto da estrada, onde a avenida ladeava uma pequena praça e se dividia numa subida abrupta a sudoeste, e um braço de asfalto sinuoso rumo ao norte.
A carcaça de animal grande, capivara talvez, era disputada por uma nuvem turbulenta de urubus ao lado do que tinha sido uma banca de revistas. A matilha partiu pra cima sem hesitar, apenas uns poucos desgarrados continuaram no encalço deles.
― Segura aí minha gente, vou peidar na fuça da cahorrada...!
A bomba, lançamento preciso de Naldo, fez os últimos rafeiros desistirem. Brigar com os bicuços de repente parecia bem mais divertido; pra quem chafurda em porcaria o dia todo atrás de restos, a inhaca da carniça satisfaz mais o paladar do que o gás lacrimogênio.
Resolveram se abrigar sob o ponto de ônibus tomado pelo mato. A pequena praça adjacente era uma fonte verdejante regurgitando ondas de proliferação vegetal, as grossas raízes das figueiras-bravas cresciam desenhando um reticulado art nouveau entre os blocos remanescentes do calçamento. O restante da subida era bastante íngreme e em terreno relativamente aberto, então, viria a travessia da grande avenida, onde estariam completamente à mercê do ataque das aves de rapina.
― Pelo menos os gatões ficam longe com esta algazarra de uivos ― Rebeca checava os danos e baixas do arsenal.
― O asfalto é ruim na escalada, mas dá passagem... o que tem são os pombos que tomaram as casas da bira, digo, da beira da...
― Hmm, seguinte, estamos no limite do que podíamos ter gasto de munição a esta altura... ainda assim, nada é pior do que os bichanos.
― Ei, abaixa a cabeça Nilla!
Emergindo repentinamente da camuflagem, um louva deus descomunal agarrou a motorista pelas costas pinçando as garras anteriores no colete de proteção. Confundem o colete de kevlar com a carapaça dos escaravelhos. Pernilla dobrou o tronco num gesto ágil, sentindo zunir no ar a passagem da lança de Dárius que decepou de um só golpe a cabeçorra do inseto.
― Caracas, nem vi de onde veio esse filho da puta!
― Cê tá legal, amor? Valeu aí, Dá...
― Viram o tamanho do bruto? Então Reba, filma direito essa tua mina, tem macho na pegação dentro das moitas...
― Boa foiçada, soldado, gostei da prontidão. Pilotas, sem palavras, cês tão dirigindo muito. Tem barra de cereais aí na sacola, vamos dar uma forrada antes de seguir em frente.
Como previsto, sofreram um ataque maciço das pombas antes de atingir o topo. Três sacas de grãos de prejuízo. Antes de se atreverem a cruzar as quatro pistas que os separavam da encosta sul, por onde desceriam até o Galpão, avistaram os vultos dos carcarás nos terraços dos prédios margeando a grande avenida. Alguns gaviões cruzavam o céu a média altitude, urubus executavam suas manobras elegantes mais acima.
― Esta é a parte mais escrota do rolê...
― Não tem jeito: é ele, ou nós.
Dárius descobriu o encerado da caçamba e puxou o bicho pra fora. Ernaldo desamarrou-o e deu-lhe uma ferroada no traseiro felpudo, o filhote de coelho saiu correndo desarvorado para o meio da rua. As aves se lançaram na captura da isca viva enquanto eles atravessavam a avenida no pau. Ouviam os grasnados dos predadores na disputa furibunda descendo pelo outro lado da montanha.
― Mano, tu deu um pula-pirata no coelhinho que quase arrancou o rabo!
― Depois choro por ele, agora nós vamos ficar é bem do ligados: daqui em diante é território da gataria.
― Que porra é aquela gente? O mundo tá de ponta cabeça, ó lá!
― Fata Morgana.
― Nunca viu, Rebeca?
Bordeavam um talude do terreno quando o belvedere lhes descortinou um vasto retângulo da zona sudoeste. Efeito do calor do meio dia, a diferença de temperatura entre as massas de ar da planície e do topo criava o fenômeno óptico. A cidade como que boiava num céu impossível.


domingo, 15 de dezembro de 2013

Leviathan melanophyllus (#2)


― Fica sussa, chefe, do jeito que as ruas tão, o menor dos problemas nesse bonde vou ser eu, garanto.
Entretanto, a chuva parou.
Num ponto o mercenário acertava, desde o surgimento do Leviathan m. muito havia mudado lá fora, para além dos muros lacrados dos viveiros humanos ― tínhamos perdido o território.
A cidadela caiu em toda parte, sob o impacto da catástrofe biológica, o conjunto da humanidade experimentava um retorno dramático às condições reinantes na origem da espécie: isolamento, população reduzida, escassa dominância sobre os outros animais.
Alguns milhões de pessoas foram devoradas pelos seus próprios pets antes que a nova situação religasse nas massas o pavor da natureza selvagem. A expansão sem freios da Natura naturans.
Abrem-se os portões da Colônia Cecília.
Os veículos saem rapidamente para o meio do asfalto, executam uma curva à direita em alta velocidade, acelerando no aclive suave da rua curta. Pilotando o jipe, Rebeca dá cobertura andando na frente do caminhão carregado de frutas e grãos.
― Uhu! Barra limpa, mano, a hora é essa!
― É bom começar sem vento contra, mas a viagem á longa. Difícil não ter problemas com os penosos levando tanta comida...
― Hmm, certo... até galinha virou problema. Escuta, este corre é food for drugs, não é? ― Beca não se gastava em voltas pra chegar onde queria.
Food for aid. Estamos com baixos estoques de medicação contínua, sou contra arriscar soldados nisso. Nem mesmo acho bonito gastar estoque com bagulho, por mim, só mandaria drones atrás dessas pragas.
― Ah, você sabe que aqui perto só tem mercadoria de baixa qualidade... mas não é o que falam do Galpão, lá rola o isômero D, o mais, mais.
― Sei que falam do Dr. W toda essa asneira de metanfetamina, mas comigo nunca nem me propuseram missões do tipo ― Ernaldo mentia, a verdade é que não lhe deram muita escolha.
― Pô cara, queria te dizer, mó respeito...
― Que é isso, tá me estranhando?
― Nem um pouco, mano, cê sabe que cê é uma lenda viva.
― Sai pra lá Rebeca, corta esse mimimi, não tem lenda não, só tem estar vivo. Estrela neste esporte não chega a vovô.
― Você chegou aonde ninguém chegou.
― Pode ser, mas juro, não foi me achando o rei da cocada que fiquei vivo até agora.
― E esse Dárius, hem? Não parece amar demais a própria pele, tem pinta de maluco de dar com pau em pedra...
― Por isso que resolvi não ir no carro com ele, vou dormir na mira desse cara. A conta dele não fecha.
― Se pisar na bola com a Pernilla, deixa eu finalizar ele. Trato?
Riram.
Mas a mortadela insistia em voltar à sua boca, odiava ter de mentir para os seus homens. Já não podia escolher muito, lembraram-no disso. Estava ficando velho. Tinha de engolir Dárius e tudo mais que lhe mandassem, compreendera que não ia sobreviver a uma sala fechada com a mesa cheia de papéis, não se via vinte e quatro horas por dia enredado na política da Colônia.
Os problemas começaram ao deixar as ruas secundárias, perto do entroncamento da via principal, ao sul, o asfalto quase desaparecia no primeiro trecho aberto do caminho. O off road precisou abandonar o seu posto de observação na esquina para ajudar no desatolamento.
Neste momento, ouviram os latidos vindos do fundo da avenida. Uma matilha enorme, faminta e em disparada.
Rebeca pulou na cabine, Ernaldo se trancou no cockpit traseiro, testando duas vezes a ignição do lança-chamas. Ajustou o laser. Arrancaram na direção do bando, dispunham de pouco tempo até serem alcançados e precisavam criar uma distração ― sem se deixar capturar, o que era menos evidente, já que a velocidade do carro era um nada superior à dos cães.
Poucos pilotos executavam tão bem a manobra em U: Rebeca dirigiu a toda a velocidade na direção da cachorrada, trafegando bem aberta pela direita do asfalto; a poucos metros deles, deu um cavalo de pau de trazer o café da manhã junto com os bofes pra fora. Naldo ficou de frente para um mar de focinhos arreganhados, rosnando enlouquecidamente.
― Quipariu, Rebeca, cê precisava chegar tão perto?!
― Vamo, cara, aciona logo essa porra de apito!!
Mandou um jato de chamas nos vira latas que quase encostavam na carroceria, e se virou para alcançar o Silent Dog Whistler. Rosqueou o tubo na posição três, soltou dois silvos curtos, agudíssimos, praticamente inaudíveis: pii-pii. A matilha parou de repente, como na brincadeira de estátua.
― Força Beca, pé embaixo mulher, a bobeira deles não vai demorar pra passar...
― Segura, peão, que nós vamo fritar pneu!
Refeitos do susto, os cães retomaram a perseguição. Problemão: os companheiros só agora conseguiam pôr a jamanta em marcha no atoleiro deixado pela chuva. A falange canina se dividira em duas, a maior parte perseguia-os de perto, um grupo menor dava caça ao caminhão. O lança-chamas de Dárius falhou, obrigando-o a gastar toda a sua cota de granadas nos mais próximos. Se equilibrando com dificuldade na caçamba, ele lutava no corpo a corpo, golpeando com arpões e lâminas, alvejando o laser nos olhos da canzoada.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Leviathan melanophyllus (#1)




            Além disso, era um daqueles homens que preferem observar a própria vida, julgando impertinente qualquer ambição de vivê-la. Deve-se acrescentar que Ernaldo observava seu destino pessoal da mesma maneira como os outros, mais numerosos, costumam olhar pela janela um dia de chuva.
            Pouco antes que saíssem, começou a cair uma chuva miúda. Expedição suspensa, por enquanto.
            Se tivessem lhe perguntado, Ernaldo teria respondido que a sua vida continuaria assim para sempre até o final previsivelmente abrupto.
Na certa acabaria devorado pelos bichos, ou morto por algum bando de saqueadores rivais, como, de resto, tinha visto acontecer ao longo dos anos a toda uma geração de companheiros. Perdas em ações externas, segundo o discurso oficial. Toda a sua geração. Era o mais velho, mais experiente, o chefe da operação.
            Um grupo sem novatos, Dárius, Rebeca, Pernilla, e ele. Dois em cada veículo, sem blindagem, mas equipados com canhões de grosso calibre. Sem pressa, terminaram de carregar equipamentos e víveres no caminhão: lasers, granadas, lança-chamas, mochilas de alpinismo, latas de embutidos, anfetaminas, se precisassem passar a noite fora, além de ampolas de propofol, caso fossem capturados.
            Pernilla e Rebeca são casadas, motivo pelo qual pôs a primeira para dirigir o caminhão-caçamba, e a segunda com ele na off road. Adotava esse sistema quando havia mais de um carro, se um veículo se perdesse do outro no meio da missão, a relação forte entre dois soldados sempre funcionava como estímulo adicional na hora de se decidir pelo resgate.
            Ernaldo tinha mais tempo de comando do que os outros de correria, mas não era isso que o preocupava naquela manhã. As meninas eram muito boas de serviço: firmeza, lealdade e, sobretudo, um tipo de coragem sem o tempero da estupidez. Dárius era o cabelo na sua sopa. Temerário, descuidado, conduzia-se por hábito no limite da insubordinação, fazia parte dos desperados, aqueles que entram na milícia faltos de opções e vocação.
            Perdera toda a família num ataque das feras.
            ― Naldo, nós só estamos aqui porque somos “diferentes”.
― Caramba, preferia que você estivesse decorando os caminhos alternativos no mapa, em vez de fazer filosofia...
― Bah, isso o GPS faz sozinho... tou falando dessa vida que a gente leva, dizem pra nós: “não há mais nobre profissão dentro da Colônia”, “vocês são a reserva moral da comunidade”, e por aí a fora. Puta hipocrisia...
― Bom, se você quer tanto saber, também reconheço a falsidade social, não vivo numa bolha... só que, não inventei e não gosto desse jogo, nem existe a hipótese “não-vou-jogar-nunca”, mas há coisas que são reais. Sobreviver é uma delas, meu foco tá aí.
― Certo, é bem isso que se espera de um comandante: foco, disciplina, deixar fora todo o resto...
― Numa coisa você tá certo, é uma pérola do humor negro, agora que estamos todos igualados na mesma lama, nego ficar com essas baboseiras de subespécies, raças, aptidões inatas...
― Era disso que tava falando... nós vivendo na duranga, e só se fala merda por todo lado, um monte de gente afirmando isto, negando aquilo, e vice versa, enquanto a garra aperta, o cerco se fecha à nossa volta!
― Ok, Dárius, mas, qual a alternativa? As pessoas só conseguem levar em frente se alguém estiver o tempo todo a lhes aparar as arestas do mundo com histórias da carochinha... faço o quê com isso? Agora, quando a gente entra em ação, é preciso apagar as ideologias, limpar os sentidos para se deixar guiar pelos instintos, o medo carnal. Acredito no que sinto, não no que minto.
― Hoje, quando olho pra dentro, descubro pouco medo em mim.
― Já tinha percebido. Vou ser muito direto. Isto não me agrada, não ouça como julgamento sobre você e suas motivações, só não quero minha equipe correndo riscos desnecessários.


sábado, 30 de novembro de 2013

o espia


nas gavetas vazias
no fosso de despejo
Nas baratas do pensamento
no tesão embutido

pelas frestas, a luz inventada
vem o sono dos sonhos
vigiar vultos desvãos 
as coisas se furtam

nunca sandálias janelas
abertas
como o branco dos olhos
como o nada atrás

da porta

domingo, 24 de novembro de 2013

os apátridas (epílogo)



Na situação sem saída em que me encontro, não tenho outra alternativa que não seja pôr um fim a tudo. Será nesta pequena cidade dos Pirineus, onde ninguém me conhece, o meu ponto final. Peço-lhe que transmita meus pensamentos ao meu amigo Adorno, e lhe explique a situação em que me encontro. Não há tempo suficiente para que escreva todas as cartas que gostaria.
Nunca li nada escrito por Walter Benjamin. O que conheço das suas idéias é de ouvir falar. Mesmo estas linhas que transcrevi acima, me foram reproduzidas de memória por Henny Gurland, quando a encontrei anos mais tarde em Londres. Depois disso, perdi-a de vista, nunca soube do destino posterior dela e de seu filho. Acabei por me fixar nos Estados Unidos após a guerra, e só agora, exatos quarenta anos passados dos fatos aqui relatados, é que reuni coragem para escrever sobre algo que ainda dói como se tivesse acontecido ontem.
Acredito que sejam as últimas palavras escritas por um dos maiores pensadores do século vinte. A senhora Gurland precisou destruir a carta que as continha, premida pelas circunstâncias ameaçadoras de então. Seguindo as instruções do professor, o manuscrito da mala preta foi entregue a um homem identificado como Charles Marcel numa praça de Madrid depois de contato telefônico.
Naquele dia, retornei rápido para Port-Vendres. Não sentia cansaço algum, estava aérea, despreocupada, com a sensação de que o mundo perdera um pouco do seu peso insustentável. Lembro vagamente de ter encontrado três mulheres na volta, duas das quais conhecia de vista, que também faziam a travessia para o lado ocidental. Conversamos brevemente, trocamos informações sobre o trajeto e nos despedimos. Não dei importância maior ao fato, afinal, eram muitos os que tentavam a sorte nas montanhas naquele período nebuloso.
Poucos dias durou a minha alegria, porém. As más notícias, como de hábito, não tardaram: Walter Benjamin se suicidara em Port-Bou. As autoridades da fronteira espanhola avisaram ao grupo que eles seriam devolvidos à França, faltava-lhes o passaporte com visto de saída da França. Não havia nada a fazer, vigiam novas diretrizes aduaneiras: os vistos de entrada expedidos em Marseilles tinham perdido a validade, legalmente, não poderiam cruzar a Espanha. Os três caíram numa espécie de limbo, uma vez que não possuíam os documentos (cassados) de origem, passavam agora à condição de apatrides, ciganos, não-cidadãos sem eira nem beira.
Vivíamos na era das “Novas Diretrizes”, em que cada escritório governamental de todos os países da Europa parecia dedicar tempo integral a decretar, revogar, baixar e suspender novas ordens e regulamentos imigratórios. Era a barbárie na sua feição burocrática. Sobreviver não era só uma questão de se esconder nos sótãos, porões, campos e florestas, mas também de aprender a passar pelos buracos, desvãos e escaninhos da diplomacia em colapso. Algum funcionariozinho imbecil, em alguma repartição cinzenta, teve uma idéia... e conseguiu quebrar a espinha do Velho Benja!
Il faut se débrouiller, diziam-nos, é preciso ter a audácia e a malícia de cortar pelo nevoeiro, achar um caminho em meio à derrocada geral de valores que as guerras trazem inevitavelmente consigo. A maioria de nós se virava como podia, forjando tíquetes extras de pão e leite para as crianças, contrabandeando remédios para os doentes, ou falsificando documentos, permissões de qualquer tipo; outros, “colaboravam” com as forças de ocupação. Benjamin não era colaborador, nem débrouillard, mas uma dessas plantas frágeis que a civilização só consegue manter vivas em condições ótimas de razoabilidade e delicadeza.
A única certeza que carregava era a de que, nem ele ― e muito menos seus preciosos escritos ―, em hipótese alguma, voltariam para as mãos da Gestapo. O percurso acidentado o esgotara animicamente, estava certo de não conseguir repetir a façanha. Confessou-me durante a escalada que trazia morfina suficiente para tirar sua vida várias vezes, “caso sobreviesse o pior”. E foi o que acabou fazendo, ao ver-se acuado. Pressionadas pela repercussão do suicídio, as autoridades espanholas foram forçadas a revogar suas diretrizes kafkianas e liberaram seus companheiros de viagem.
Recentemente, o professor Gershom Scholem, melhor amigo e curador da obra de Walter Benjamin, me telefonou de Londres; falamos do seu trabalho e daquela sua última caminhada. Ele se interessou por cada detalhe que consegui lembrar, ao final, disse-me que nunca tinha ouvido falar da tal pasta preta, “até agora, ninguém sabia que tal manuscrito sequer existisse”. O mesmo me foi dito por outra amiga dele, a professora Hannah Arendt. Permanece até hoje o mistério sobre o paradeiro daquela mala cujo conteúdo era mais importante do que a própria vida.
Cada época sonha a seguinte. É incrível como um filósofo tão profundo, vivendo enfurnado em bibliotecas, um crítico apaixonado por autores do passado, tenha sido capaz de antever com tamanha lucidez as múltiplas configurações, padrões e formas do mundo contemporâneo. Vivo na América, o maior shopping center do planeta, onde o Velho Benja nunca pôs os pés, e, no entanto, este país encarna como nenhum outro a utopia destrambelhada que ele profetizou. O Hipermercado onde tudo e todos são commodities, Grandville, estão aqui: no sonho orgulhoso de liberdade, na desmesura dos arranha-céus, na imensidão das highways, no mais fútil dos modismos.
Tudo ainda me magoa tanto.
Às vezes me pergunto se a memória me pregou uma peça, depois, penso que não, poderia ter inventado tudo: os Gurland, a route de Lister, as mulheres que encontrei na volta, a patrulha nazista, mas não a maldita pasta preta à qual aquele pobre náufrago se agarrava. O que conteria? Aparecerá algum dia em um depósito velho de Madrid ou Zanzibar? Será que este livro perdido poderia ter aberto os olhos da humanidade e evitado futuras guerras?
Acontece que a sabedoria não se recebe, é preciso descobri-la por si, merecê-la ao final de um trajeto que ninguém pode fazer por nós, do qual ninguém poderia nos poupar ― porque a sabedoria representa um combate, derrota e vitória: ela é um ponto de vista pessoal sobre as coisas. Isto aprendi no alto da montanha.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

os apátridas (3)



            ― Lisa, você nunca reza? Mamãe está lá dentro, rezando pelo komischer Kauz...
― Hehehe, você tem razão: ele parece mesmo uma coruja. Não, eu não rezo nunca... minto, rezo sim: pra esta loucura em que o mundo mergulhou acabe logo.
― Não consigo dormir, quer que eu fique de guarda?
― Obrigada, José, acho que nenhum de nós vai pregar o olho esta noite.
― O professor me disse que nunca houve uma guerra boa, nem uma paz má...
― Viu só? Não se preocupe, ele é muito inteligente, vai saber se virar.
A cena se gravou feito cicatriz na minha memória. Entre tanta gente que ajudei a escapar, a imagem daquele sujeito franzino no limite das suas forças físicas, e mesmo assim tão agarrado ao seu senso de dever, ficou para sempre em mim. Durante toda aquela noite branca pensei que tinha descoberto uma razão para continuar, havia finalmente um sentido no que eu fazia. Qualquer pessoa vale a pena ser salva de uma morte estúpida e inútil. Como todos os outros, o Velho Benja lutava por salvar a própria pele, a diferença é que, de uma maneira que então apenas intuía, ele o fazia também por nós. Pessoas assim fazem acreditar que a humanidade vale o sacrifício, que a barbárie não terá a palavra final.
Levantamos acampamento antes do sol surgir por trás dos montes; com alguma dificuldade, achamos a pequena trilha ladeada a noroeste pelo rochedo e seguimos, acelerando inconscientemente o passo rumo à clareira, contornando o azinheiro. Lá está ele! Sentado no mesmo lugar, na mesma posição do dia anterior. Sua aparência estava ainda mais amarrotada, a barba por fazer ainda maior, seus olhos de sonhador perdidos como nunca. Atiramo-nos sobre ele num impulso de alegria descoordenada, tropeçávamos uns nos outros, abraçávamos e beijávamos o constrangido intelectual.
Mein schätze, mein liebe Professor, como... como foi...?
― Oh, por favor, não chorem. Estou bem, nada me aconteceu, como podem constatar.
― Sozinho... aqui, ao relento... na noite fria!
― Por pior que seja, o presente é finito, encerrado na esfera do vivido, só a lembrança é sem limites, porque contém a chave para tudo que veio antes e depois. Vamos em frente.
Esquecer e partir. Foi o que fizemos imediatamente, era tudo que fazíamos desde que a praga do conflito descera sobre a Europa, arrastando nossas vidas num turbilhão insensato de sangue e horror.
A subida foi ficando progressivamente íngreme, a trilha, mais e mais interrompida por mato bravo. Mantínhamos a orientação pelo platô dos sete pinheiros à nossa direita. Em certos momentos, a route Lister se aproximava da estrada oficial; antigo passo de contrabandistas, muitas vezes nosso caminho corria encoberto apenas pelo ressalto no bordo da encosta. Acima de nós poucos metros, escutamos soldados do Reich conversando enquanto fumavam numa parada. Prendemos a respiração petrificados, o idioma alemão agora provocava estas reações instintivas de medo.
Enfim, avistamos a vinha que indicava o melhor ponto de travessia da cordilheira. Não havia pista alguma no chão, a inclinação era praticamente vertical; subíamos agarrando as cepas lenhosas, carregadas da uva escura e doce de Banyuls. Pela primeira e única vez, o professor fraquejou, avisando formalmente que a escalada final estava além da sua capacidade. José e eu tomamos o pobre homem nos ombros, carregando a ele e sua bagagem morro acima ― respirava pesadamente, mas não fez uma queixa, nem um suspiro, apenas espreitava minuto a minuto a mala preta.
Quando alcançamos um vale estreito entre os espigões de pedra, paramos para comer. O vento soprava furioso, arrancando o chapéu da senhora Gurland. A água acabara. Comemos pouco, na verdade, ninguém comia muito: primeiro, tinha sido o campo de concentração, depois, o racionamento. Nossos estômagos haviam encolhido, nossos corações, também: estávamos sentados ao lado do esqueleto de um animal, e dois abutres sobrevoavam as nossas cabeças.
Enquanto os outros descansavam, resolvi sair para uma exploração das redondezas. Uma curta volta em meio a rochas escavadas pelo degelo, e então, vi. Lá embaixo, reaparecia o Mediterrâneo: do lado de onde viéramos, a costa francesa, do outro lado, bem à minha frente, o azul do mar da Catalunha. Com o Roussillon atrás, a norte, surgia diante de mim La Côte Vermeille, o mais magnífico arranjo de falésias, morros e vegetação, na qual o outono se divertia exibindo uma paleta luxuriante cobrindo todos os tons de vermelho, ocre, e laranja que existem na imaginação e fora dela. Estava embriagada de beleza e acrodementia, o mal das alturas.
― Se me permite uma citação de Proust, diria que esta é a beleza que nos promete um tipo de felicidade desconhecida, um prazer tão outro, que morremos sem saber que ventura seria essa...
Herr Benjamin, que susto! Não esperava que fosse o primeiro a me alcançar...
― Os Gurland estão vindo já. Senhora, não tenho como agradecê-la suficientemente pelo que fez por nós. É dona de uma grande alma, Fräulein...
― Pare, professor, peço-lhe. Já me fez chorar o que não chorei em meses... Veja ali, uma estrada de verdade! Sigam direto por ela até Port-Bou, têm os visas para atravessar a Espanha e chegar a Portugal, mas isso já está cansado de saber... Não posso me arriscar a ser pega em território espanhol sem visto.
― Adeus, até breve!
― Adeus, vão agora.


sábado, 16 de novembro de 2013

os apátridas (2)


            Aquela era uma jornada sem volta para o Velho Benja (como chamávamos o professor), a senhora Gurland e o filho, José. Não pra mim: meu marido permanecera em Marseilles tentando obter o visto de saída da zona de ocupação. Naquele outono e no inverno seguinte ajudei centenas, talvez um milhar, de pessoas a atravessar a fronteira por aquele caminho, em condições ainda mais adversas e grupos maiores. Chegava a fazer quatro, cinco, travessias por semana, nenhuma delas, no entanto, me marcaria da mesma forma.
            A França tinha virado uma nação em fuga, la pagaille complète, ou o caos total, como diziam os nativos, um país inteiro movendo-se em direção ao sul. Atrás de nós, inúmeras vilas e cidades mortas, lugarejos sem vivalma onde cachorros e galinhas vagavam perdidos, e um único ruído ao longe, trazido pelo vento, o matraquear sinistro das esteiras dos tanques alemães. Nos portos da costa meridional, tornaram-se costumeiros relatos de planos de fuga tão audaciosos como improváveis, multiplicavam-se notícias de navios fantásticos, guiados por capitães de fábula, conduzindo fugitivos com vistos para destinos ignorados por Atlas e passaportes de países que deixaram de existir.
            Não estávamos com sorte. Muito antes da floresta de faias, castanheiros e abetos, na qual caminharíamos mais abrigados, ouvimos comentários dos trabalhadores da vindima indicando a presença de soldados nas cercanias; fomos obrigados a contornar os campos abertos, abrindo passo custosamente por entre touceiras e capinzais densos. Mantinha os movimentos do Velho Benja sob estrita observação: marchava em ritmo lento e incrivelmente constante, sobraçando o calhamaço, consultando o relógio constantemente.
            ― Que tanto confere no relógio?
― Madame, descobri que o máximo que agüento são dez minutos de marcha forçada, por isso é que fico lhe pedindo um minuto de descanso entre estes períodos.
― Posso lhe evitar essa canseira adicional, professor, eu o avisarei...
― Muito grato, porém, só consigo suportar condições iníquas se estiver totalmente absorvido por uma tarefa, enquanto controlo o tempo, ponho a minha mente a serviço de salvar a minha vida.
― Bem pensado. Escutem, vamos parar dez minutos, já estamos caminhando há quatro horas e meia. Senhora, na sua musette temos pão do posto de racionamento, tomates e um arremedo de marmelada do mercado negro. Bebam pouco, por favor, não sei se encontraremos fontes de água na região.
― Com sua licença, será que posso...?
Este era o professor pedindo tomates, o mundo se desintegrando cultural, moral e espiritualmente, mas nada seria capaz de fazê-lo abandonar seus modos de cortesão de Castela. Em qualquer época que vivesse, seria um cavalheiro de antigamente. No inverno anterior, antes mesmo da rendição, o governo francês começou a prender os refugiados do leste em campos de concentração co-administrados pelos nazistas. Meu marido, que o conheceu no campo de Vernuche, perto de Nevers, descreveu assim seu companheiro de prisão numa carta: “... mente aguda e clara como cristal, uma inquebrantável força interior, e o mais despreparado dos seres humanos para os assuntos práticos da vida”.
A cabana escondida por urzes e giestas não passava de um celeiro semi-destruído pela vegetação invasora, e o tal riacho a noroeste estava seco. Seguimos por encostas e vales pedregosos durante mais ou menos duas horas em silêncio. O tempo todo rememorava as instruções de M. Azéma: saia antes do amanhecer, misture-se aos vindimadores na subida, carregue apenas uma musette (pequeno saco a tiracolo), não fale. Guardas de fronteira facilmente identificariam nosso sotaque. As condições físicas do Velho Benja, porém, deterioravam minuto a minuto; sob a barba grisalha percebiam-se manchas vermelhas a tomar-lhe a face. O sol ia alto no céu, todos ofegavam desgastados pelo calor e o cansaço.
            ― Bom, bom, pelo nosso mapa, devemos estar bem perto de uma clareira e...
            ― Lá está, lá está! A clareira, a clareira!
            ― Shh, José, não grite!
            ― Ok, não gastemos fôlego à toa, vamos nos acalmar e fazer uma parada um pouco maior...
            Achamos a pequena trilha com uma ligeira inclinação à esquerda, então, o enorme rochedo a noroeste, finalmente atingimos a clareira. Vi quando o pobre homem desabou na grama exausto. O lugar não era propriamente seguro, e não tínhamos sequer alcançado a metade do caminho. Mãe e filho já aguardavam para partir, mas ele não se mexia.
            ― Você está bem?
― Sim, vou ficar bem. É melhor vocês três prosseguirem, eu fico.
― Como assim, fica?! Não vou deixar ninguém pra trás, além do quê, esta é uma região de touros selvagens, de contrabandistas e lobos... Tem idéia do que pode lhe acontecer?
― Não poderão me carregar montanha acima, nem ao menos até o abrigo. E a senhora, como me protegeria de um touro? Voltem para a cabana, passem a noite lá. Amanhã cedo, continuamos. Se algo me acontecer, a senhora Gurland saberá a quem entregar meu manuscrito na Espanha.
            Acabei por concordar, o raciocínio era linear: o coração dele não agüentaria esforço adicional, sua cota diária se esgotara. Quando partimos, estava sentado numa pedra agarrado à pasta preta ― em nenhuma circunstância largava o cartapácio, sua missão era arrastar aquele monstro e a si mesmo até o outro lado. A garganta me apertava como se fosse chorar a qualquer momento, deixar um homem daqueles numa situação daquelas me angustiava o peito com o peso de todas as montanhas dos Pirineus. Era uma situação de pesadelo, sentia-me largando um parente querido, abandonando uma criança sozinha no meio da floresta com a promessa de retornar na manhã seguinte.