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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Red Star (2)



O advento do terrorismo islâmico e a última (mas não derradeira) grande crise econômica mundial sacudiram de vez a bolha de tranqüilidade do mundo ocidental: batalhões de experts, coortes de políticos conservadores e xenófobos de todos os calibres emergiram das sombras para vociferar panfletos apocalípticos e anunciar sem rodeios que as duramente conquistadas liberdades e direitos civis precisam ser limitados de forma a lidar com as novas ameaças à segurança coletiva. Um aplicativo capaz de identificar potenciais conspiradores ou indivíduos procurados pelas autoridades de repente virou o Santo Graal da vigilância filmada.
Neste quadro de paranóia globalizada o projeto de Jaqueline ganhou importância, sendo alçado ao nível top de prioridade. Ninguém ousa questionar os seus métodos. Não é que se engane, está plenamente consciente de que o seu trabalho passou a ser artificialmente valorizado e por isso mesmo acredita que não terá oportunidade melhor para implementar seus objetivos profissionais. Bem como as taras pessoais. Por exemplo, neste momento ela traça a rota de Paco a fim de verificar se ele realmente vai direto do serviço pra casa como disse na mensagem lacônica enviada há pouco. Algo fez o seu alarme interno soar.
É um homem de hábitos, eles sempre tomam um café quando ele sai e ela entra no plantão da companhia de bisbilhotice pública. Brincadeira de criança pra Jaque: digita seu log in de acesso e faz uma busca nos registros dos semáforos inteligentes da cidade com o número da placa do carro que conhece tão bem. Batata. Os dados indicam que o veículo do amante não tomou nenhuma das autopistas possíveis com destino a Los Jinetes (A-4 ou SE-40), ao contrário, surge a localização atual na Calle Placentines. Consegue a imagem da rua em tempo real na tela, a tempo de ver o Seat Ibiza parar em frente ao número 21. Azahar Bar & Copas.
― Filho da puta, bem aqui ao lado! Aposto que é outra mulher, pro canalha não é suficiente ter duas.
Ainda assim quer ter plena certeza das suas suspeitas, resolve testar seu software nas câmeras da Placentines: digitaliza uma foto de Paco e deixa a filmagem rodando. Tão logo ele saia do bar o sistema vai disparar o alarme anunciando a identificação do suspeito, e então ela vai descobrir se a suposta acompanhante é ou não a esposa do calhorda. Sente uma pontada dolorosa no coração, o Azahar é um pequeno bar turístico, fora do roteiro dos amigos e conhecidos dele. Levou-a lá quando se descobriram apaixonados, justamente pela discrição e aconchego do local.
Acostumou-se a ser a outra, a ponta oculta do triângulo amoroso, mas ser corna de uma terceira mulher era demais pra ela. Namorar um homem casado não lhe parecia ser mais do que um incômodo conveniente, o tipo de relacionamento sem muita cobrança nem o controle habitual do macho latino. Tipo da situação confortável para ambas as partes. Mas acontece que o boçal vivia protestando seu grande amor por ela, ameaçando separar-se a cada conversa pós-coito entre lençóis, vinho e cigarros. Imbecil, cochambroso.
Pra se distrair enquanto espera, realiza suas tarefas rotineiras verificando os controles e os avisos habituais das máquinas. Àquela hora não há mais ninguém acordado no décimo sétimo andar, até o guarda noturno deixou a ronda pra tirar um cochilo. Sozinha como sempre, como tanto gosta. Há uma placidez quieta na cidadela de computadores, telas e consoles de última geração à sua volta, uma ilha de tranqüilidade alheia ao bulício dos que aproveitam a noite quente do sábado. Somente os solitários sabem apreciar a beleza que o silêncio encapsula.
― Ahá, soam as trombetas! Vamos ver o que nos reserva a noite... hmm, aproximar foco, aqui está: ele saindo do bar e... acompanhado! Vamos ver quem é ela, não é a esposa... uma loira aguada. Grande bufão, corno de merda!
Novamente ela aciona os radares detectores de velocidade para lhe informarem o trajeto do carro. É como um vôo de pirilampo: acende e apaga, acende e apaga, mas o rastro de luz vai indicando o caminho. Por sorte há registro de imagem na rua onde param, anota o endereço. O casal sobe um pequeno lance de escadas, abraçados, desaparecendo no edifício residencial. Uma luz se acende no quinto andar, depois se apaga novamente.


domingo, 21 de fevereiro de 2016

Red Star (1)



            O sol de Sevilha é o olho excessivo de Deus sufocando toda a terra da Andaluzia nas suas cores escaldantes e derramadas. Jaqueline desceu na estação de metrô Puerta de Jerez e vai a pé para o edifício Red Star, ela trabalha no décimo sétimo andar de onde se avistam as torres do Real Alcázar, as curvas do Guadalquivir e as magníficas agulhas góticas da Catedral de Sevilha. Aproveita o resto de luminosidade do longo dia de verão para caminhar antes de pegar o turno da noite.
            Enquanto se desloca sem pressa pela calle San Fernando hesita entre um capuccino no Starbucks e um sorvete na Häagen-Dazs, as ruas cheias de turistas convidam a aproveitar os últimos dias de férias. Decide ir direto pro trabalho sem escalas depois de receber uma mensagem de Paco, mais uma vez ele precisava voltar mais cedo pra casa. Ela não gosta dessa coisa de ficar sozinha nos cafés, embora prefira trabalhar na sua estação sem muita gente por perto.
            Paco talvez gostasse de dar um passo a mais na relação deles, mas Jaqueline cortou logo esse papo. Sexo e amizade, ponto. Trabalham juntos, já está bem bom no quesito intimidade. Além do mais, ele é casado e qualquer alteração desse status quo seria uma dor de cabeça quilométrica: separação, chororô, explicações aos amigos, conversa “adulta” com a ex magoada, enfim, um festival de invasão alheia na sua vida. Tudo que ela lutou pra manter longe de si.
            Tudo acontece sob o céu tórrido da Espanha, de modo algum colorido e duro como se pinta, mas ensolarado e de uma claridade ofuscante ― mole e turva ―, por vezes irreal, pois o brilho da luz e a intensidade do calor evocam a liberdade dos sentidos, mais exatamente a umidade mole da carne. Paco é andaluz até à medula, capaz de passar a eternidade numa tasca barulhenta cheia de amigos, papeando em torno de gordas azeitonas besuntadas em óleo de oliva, lulas em rodelas, fritadas de ovos, fatias de presunto e copos de Jerez até as horas da noite não agüentarem tanta conversa.
            ― Olá Jaque, chegando mais cedo pra se enfurnar na caverna?
― Salve Juanfran. A noite está do jeito que você gosta, cheia de turistas pra azarar. Vai lá soltar seu irresistível charme ibérico pras americanas sedentas de cor local.
― Bom, pelo menos temos isso: o turismo das gringas taradas. Esta cidade não acontece nada nunca, se não fosse pelas corridas de touros e os batedores de carteiras, morríamos todos de tédio.
― Eu acho melhor assim, aliás, nós estamos aqui pra isso.
Especialista em segurança de dados, Jaque se instala na “caverna”, como os colegas apelidaram a sala de controle das câmeras de vigilância pública da cidade de Sevilha. Atualmente trabalha na implementação do programa de reconhecimento de rostos ligado ao G.E.O., grupo de operações especiais da polícia espanhola, em cooperação com a Interpol. O objetivo é tornar a cidade completamente segura e servir de modelo pra comunidade européia: taxa de resolução de crimes acima de 90 %. Cercada de telas, ela é feliz em seu bunker.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

os culpáveis (final)



A vida é um seriado que você vicia antes de saber exatamente qual porra de história se trata, aquele tipo de filme que existem milhares de livros escritos só pra tentar explicar, vou passar a porra da vida aprendendo a ler o tal livro da vida sem ajuda de tutorial no Youtube, enquanto isso, vou fazendo todas as cagadas possíveis nesta encadernação, aliás, tremo só em pensar o que pode ser a minha próxima encarnação com o karma acumulado na atual e contando, vamos ampliar a bigger picture (organizador de fatos nº ∞): as semanas vão passando lentas como conversa de novela, continuamos a dormir na sala, eu no sofá quebrado, o Tomate no chão rachado com meio corpo dentro da cozinha, Faraco e Moura se aboletaram no quarto e grudaram na aba do meu chapéu feito duas cracas, esses dois, sei não, passam o dia inteiro no quarto, dormem na mesma cama, se barbeiam juntos de toalha e peito nu... enfim, depois daquela conversa escalafobética sobre o Capitão Nascimento acredito em tudo vindo desses comédias ― acho que alguém vai ter que desenhar pra mim.
Mas o pior eram as saudades: Brenda, dadivosa Iansã, saiu da minha vida trovejando e sumiu no turbilhão da galeria metamorfoseada num daqueles pitéus de condução, brejeiras gostosinhas que nunca vão ser suas, mas são o verdadeiro sal do transporte público, ó Brenda das minhas bronhas, onde está você?, que rebolava gostoso e manjava dos paranauê, onde andarás nesta paulicéia tão desvairada e cheia de tentações pras morenas safadas de coxas grossas?, confesso que já nem me preocupava com o destino do pobre Uzodima ― os seqüestradores não fizeram um único contato ―, só queria a mina de volta, por outro lado, fui criando uma jeriza danada em relação ao Tomate, sei lá, uma tiriça, tipo inhaca de estar ali socado com 3 marmanjos numa quiti, a ex mulher mandando um oficial de justiça atrás do outro, se pá devo sofrer de claustrofobia misantrópica, e como a mente é uma montoeira de contradições, ficava vindo direto Chucho Valdés na rádio-cabeça: “Se me hizo fácil/ borrar di memória/ a esa mujer a quien/ yo amaba tanto/ Se me hizo fácil/ borrar de mi este llanto/ ahora la olvido cada dia más y más...”
― Não sei não, o Dingo parece meio tristinho. O zoológico de Los Angeles ainda não mandou a Cindy pra fazer companhia pra ele.
― Verdade, Ava?, acho que vou mandar uma carta pra esse zoo, se eles forem mesmo bons nisso quem sabe não descolam uma pra mim?
― Prefiro quando você tá namorando, quando tá sozinho, daí você fica triste e perde o trabalho, daí não consegue comprar salgadinho pra nós.
― Hmm, minhas finanças têm andado meio... trash, mas as perspectivas melhoraram, me encomendaram um job num resort 6 estrelas em Koh Phi Phi.
― Onde fica isso?
― Tanto faz, não vou pra lá mesmo, já fico bem feliz de evitar o descanso sabático que a sua mãe quer me dar.
― Pai, você é um homem descansático?
A abrupta queda na taxa sangüínea de todas as drogas que circulavam no meu corpo me deixou mais sonolento, bodeava a qualquer hora no sofá desabado encostando as vértebras diretamente nas ripas do arcabouço, e sonhava, horas a fio, como se não houvesse amanhã, invariavelmente lá estava eu correndo atrás da bela Brenda, mantida cativa numa masmorra pelos terríveis irmãos Trufadalho, que eram a cara de Faraco e Moura, enquanto as artimanhas do perverso Mascarin (a fuça do desgraçado do Tomate) me mantinham longe dos braços e abraços da mulher amada, toda essa atividade onírica, porém, me cansava de morte e, obviamente, não contribuía para melhorar a relação estremecida com o Tomate.
E então, um belo dia, chego na goma e os dois tiras estão arrumando suas coisas.
― Estamos indo, obrigado por tudo.
― Mas, e a investigação, o Uzodima?, bem, de nada, foi um prazer vocês detonarem a minha vida.
― Queria dizer pra você que foi muito importante pra nós, concluímos que não tem mais sentido a gente não morar juntos. O americano deu sinal de vida pra embaixada. Tchau.
Tempos depois o Uzo apareceu em casa, uns 60 Kg mais magro, falando que tinha sido iniciado na umbanda e batizado no movimento, agora ele pagava “cebola” e vivia na sintonia trabalhando pra firma como ‘resumo” da zona sul, pra abreviar uma história longa, no cativeiro ele descobriu o verdadeiro sentido da existência aderindo ao movimento social radical que sempre buscara: o Primeiro Comando da Capital, fiquei tão zonzo com aquele jorro de notícias e realidade mundo-cão que desabei na poltrona, fiquei uns bons minutos ali estatelado após a saída do ex-gordo e ex-amigo americano, até que a minha mão esquerda apalpou um tecido fino no desvão das almofadas do sofá: a calcinha da Brenda!
E então, toda a cena se iluminou por um relâmpago cruzando a minha mente obscurecida, estava tudo ali bem debaixo do meu nariz sedento da brite: a calcinha que faltava, o local do crime e... o filho da puta que estava lá, naquela mesma sala, enquanto eu era interrogado madrugada adentro!, fiz um escândalo de puta pobre e escorracei o Tomate do meu apê, sovando-o escada abaixo e cuspindo-lhe na cara toda a ingratidão.
― Volta pra rua, seu filha da puta, volta pro teu lugar: o nada!, seu mudo de merda, oferenda de esgoto.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

os culpáveis (7)


Descobri ― mais exausto que estarrecido, e menos indignado do que deveria ― uma escala global-local da cidadania: assim como eu era mais gente que o Tomate, e por isso apanhei civilmente pouco na DP, a vida do Uzodima era incomparavelmente mais valiosa que a minha, e por isso ganhei duas tornozeleiras humanas na minha aba durante um longo mês, a versão gaiata de Starsky e Hutch passou a gerenciar cada aspecto do meu caótico cotidiano: da marca de café que abastecia seu insaciável apetite por estimulantes, ao papel higiênico folha dupla completamente fora do orçamento doméstico, saídas vigiadas, celular grampeado e confiscado, computador hackeado, encher a lata?, arrastar a vizinha do terceiro prum tetê-à-tête?, dar uns tecos na nine?, nem sonhar, tio, Faraco e Moura impuseram disciplina espartana e abstinência forçada a tudo aquilo que antes eu chamava vida pessoal.
A coisa começou errada de cara, logo ao chegar rolou um bafão com a Brenda, aliás, depois daquela dê-erre nunca mais nos falamos, mas me adianto, ela estava usando aquela sainha deliciosamente micro, liberado antes de mim, o Tomate também estava lá no apê de olhos pregados no chão, mesmo assim dava pra ver o estrago feito na faccia do coitado, um molambo cambaio de gente, a Brenda, ao contrário, veio pra cima fervendo na veia: sangue no zóio e faca no dente, ignorou a presença dos tiras e soltou a cachorrada em mim, sublinhando o rap de xingos com tapas e arranhões distribuídos sem dó.
― Custava atender a porra do telefone, custava?, seu merda! Uma mensagem, uma explicaçãozinha que seja... daí, lá pelas tantas, chega esse cretino todo fudido que não explica piçiroca nenhuma. Seu calhorda, cagalhão!
― Amorzinho, posso explicar tudo mais tarde? Sabe o que é?, tive uma noite do cão...
― Ah, sim, claro que você vai ter uma explicação, sete um é contigo mesmo, mas quer saber?, cansei do teu xaveco, papudo. Você quer é o Nelson Rodrigues todo: eu correndo nas delegacias e hospitais atrás do idiota que me faz de idiota, comigo não, cachorrão, tô por aqui dessa sua vida farra-pinga-e-foguete!
― Meu bem, vamo lá no corredor?, pelo menos lá, ao contrário destes cavalheiros, os vizinhos já conhecem os detalhes tão pequenos de nós dois ― na verdade, apesar do cansaço e dos safanões da Brenda, tava seco pra dar um cata naquelas coxonas. Sem dar bola pro bafafá, Faraco e Moura se instalaram no meu quarto sem a menor menção de pedir licença.
― E esses daí são o quê?, seguranças do Love Story que você levou o gringo? Vai tomar no cu, filho da puta presepeiro!
Fomos pra fora do apê, àquela altura minha pitchula choramingava lamurienta deliciosamente fazendo biquinho com a boca rosada e limitando as agressões a poucas (mas doloridas) muquetas eventuais, um assunto foi levando ao outro, e, antes que ela conseguisse perceber a falta de transição dramática, estávamos dando um amasso federal junto à banca do vendedor de balas e doces do andar, quando fiz nova e estonteante descoberta: minha musa estava sem calcinhas!, fato que em condições normais até faria parte dos nossos joguinhos sacanas, naquele momento me jogou num abismo de sofrimentos chifronésios otelianos, tamanha saliência não ornava com o manto da indignação que recobria a minha amada.
― Mas que porra é essa?, tem alguma coisa que cê precisa me contar, Brendinha?
― Não muda de assunto. Só... esqueci, foi tudo. Quem deve explicações aqui não sou eu.


domingo, 29 de novembro de 2015

os culpáveis (6)



Onde estaria o Uzo numa hora dessas? preso no quartinho de algum barraco infame, ou amarrado e amordaçado no bunker do trafica local enquanto uma assembléia de meliantes decidia sobre a sua continuidade neste plano físico e espiritual?, imaginava o pobre sentenciado, levado por entre névoas turvas para um descampado: rinoceronte abatido sendo arrastado pelo chão, um vulto prestes a se tornar anônimo, a bata comprada num brechó afro do Greenwich Village rasgada e ensangüentada, a mais nova vítima da guerrilha urbana, morto por engano, caído no matagal, descarnado por urubus indiferentes ao manjar de carne cevada por comidinha glúten, sódio, açúcar, lactose e picanha free, como ele mantinha aquele corpitcho pra lá de bem fornido banindo todo o rango trasheira eu nunca chegaria a saber.
― Você trouxe o gringo pruma armadilha? Suas pupilas estão dilatadas, usaram drogas? Manteve relações sexuais com o seqüestrado? ― Moura, o federal das unhas manicuradas, repetia basicamente o roteiro do interrogatório factual dos outros policias, com a notável exceção de, aqui e ali, inserir esse tipo de perguntas capciosas entre um gole e outro de Red Bull.
― Falando nisso, doutor, posso dar uma ligada pra Brenda? Ela deve estar...
― Nem pensa, essa porra precisa ficar livre caso os caras liguem pra pedir resgate. Sinceramente, seqüestro é a melhor hipótese pro seu amigo... e pra você também. O seu outro comparsa imbecil foi liberado, não cantou nada, tudo que temos é: um americano sumido, a embaixada apertando nossas bolas, e a conversa mole de um jornalista chapado ― Faraco, o do Rolex, transitava do morde pro assopra com uma facilidade alucinante, sobrepondo na mesma e indivisa pessoa as máscaras do good e do bad cop, mas o pior estava reservado pro grand finale da noite em claro.
― Seis da matina, por hoje é só. Vamos ― levantaram juntos.
― Ei, vocês vão me deixar aqui?
― Não, você vem conosco, o governo do seu país vai te dar uma carona e dois carrapatos. O delegado não tem nenhum motivo pra te prender, e nós nenhum pra ye soltar. Enquanto essa trolha não sair da nossa bunda você é nosso.
Menos mal que eles iam me levar pra casa, menos bem que iam ficar lá hospedados até a fita se desenrolar, se por um lado perdera o financiamento internacional, do outro ganhava dois guarda-costas particulares e o rolê na barca chapa fria da PF, se tivesse que pegar o buso naquele fim de mundo ia ser foda, mas a foda maior seria explicar pra namorada que o meu apê aumentaria a taxa de ocupação, organizador de fatos n².k.π.fatorial: Brenda é a gatinha de saias curtas e coxas grossas que tem matado a minha sede carnal quase tanto quanto saturado meu volume sacal, o velho lance da posse condicionada, comigo as mulheres invariavelmente recaem na pira do “vou mudar esse cara”, constatada a impossibilidade, dão no pé e passam a me odiar com gosto, tenho sólidas suspeitas de que na contabilidade da Brenda estou a poucas pisadas na bola de levar a bota final.
― Escuta aí, ô repórter, na tua área tem um monte de bicha, tem não? ― Moura, o do cabelinho à boys band, quebrou o gelo na viatura enquanto voltávamos.
― Acho que sim, quer dizer, não sei se tem mais ou menos, também eu não conheço outra profissão...
― E o capitão Nascimento, você acha que, talvez, ele poderia? ― Faraco parecia me introduzir a uma espécie de polêmica interna da dupla.
― Qual, o do filme? Bom, nunca pensei nisso... ele era casado, ou separado, acho, na verdade tem o lance lá com o filho.
            ― Isso não quer dizer nada, sempre se pode mudar, não?
― Que eu me lembre, na época, a grande dúvida é se ele era fascista.
― Ah, mas a imprensa esquerdinha caviar sempre pensa isso de nós ― havia uma indisfarçável mágoa na voz do Faraco.
― De todo modo é meio forçado, há poucas evidências disso, tanto no Tropa 1, como no 2 ― bizarramente, lá estava eu tentando ser a voz da razão na pendenga.
― Tem razão, e depois, nestes casos nunca existe prova definitiva: o camarada se vestir de mulher não faz dele gay, gostar, e até transar, com homem não quer dizer que seja...
― Bom, mas então o que seria um gay?
― É quando o sujeito sofre por causa de homem.


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

os culpáveis (5)



O tenente Carmona tem idéias definidas:
― Pega um, mastigando você pensa melhor ― estendeu-me a embalagem de chicletes sabor canela.
Não gosto de chicletes, nem do sabor canela, mas aceitei porque era a primeira coisa que me ofereciam além de tabefes e socos nas costelas naquela delegacia.
― Desculpa tenente, não é querer lhes dizer como fazer seu trabalho, mas o senhor poderia dizer ao pessoal do plantão pra parar de bater no meu amigo Tomate? Não é má vontade dele, ele não fala mais desde que foi atropelado e perdeu um meio quilo de miolo...
Pelo rádio pendurado no peito do uniforme cinza do oficial chegou um sucinto QAP informando que o elemento conhecido como Chacal acabara de bater os chinelos de dedo, sem se alterar, respondeu burocraticamente e voltou a fixar um ponto bem no fundo dos meus olhos.
― Que leve meu salve pessoalmente ao Satanás. Parabéns pra rapaziada.
Tardei pra reagir com algum grau de adequação à nova situação: tiroteio num bar de perifa, seqüestro do negão da SUV, e dois suspeitos que não estavam “colaborando” nas investigações da entediada equipe de plantão da delegacia local, isso que dá ter cheirado em serviço, agora pra voltar ao modo normal de cidadão brasileiro lidando com o serviço público da pátria amada tava osso, minha sugestão de que uma reportagem sobre as difíceis condições de trabalho da polícia militar não despertava o menor entusiasmo no Carmona, ele parecia mais interessado em outro detalhe do caso.
― Gringo, você disse? Veja, meu amigo, se você me ajudar, eu te ajudo, tamo aqui trampando de madrugada por um salário de fome, esse caso complica cada vez mais, e não tem nem uma apreensão, um agradinho pros rapazes. Assim fica difícil.
― Claro, claro, entendo bem esse lado, senhor, trabalhar por salário de fome é comigo mesmo, é que... já disse tudo várias vezes, tentei fazer o gringo desistir, mas ele é loucão, queria porque queria conhecer os fluxos da quebrada, acha que a nossa malandragem é revolucionária, e coisa e tal, esses papo de ongueiro esquerdopata...
Naquele momento entrou um policial civil na saleta obtendo a inteira atenção do tenente, segundo as notícias, dois agentes da federais estavam a caminho e o caso subia de jurisdição, não seria nem chamada a divisão anti-seqüestros da capital, o PM se levantou subitamente me descartando da sua zona de preocupações imediatas, o consulado americano havia confirmado a minha história.
― Tu fica aqui mesmo, os caras tão vindo ― o tenente Carmona percebeu que eu fiz menção de me levantar ― Moraes, avisa seus homens pra diminuir com o outro suspeito lá, parece que é débil mental mesmo. Você vai sentir saudade de nós, meu amigo.
O chiclete tinha um gosto terroso que demorei a associar com o gosto de sangue oriundo dos tabefes dos tiras, era de se admirar a limpeza e eficiência das autoridades: os camaradas me bateram pra caraca sem deixar vestígios, estava com dor em tudo que é lado e sem uma marquinha ou machucado, serviço profissa, embora fosse de se esperar que não houvessem sido tão cuidadosos com o meu broder, imaginava o pobre Tomate transformado num molho bolonhesa, e já que a noite era uma criança, só me restou esperar feito corno pelos dois próximos personagens daquela comédia de humor negro, agentes Faraco e Moura.
O policial federal Moura tinha cabelo de cantor de boys band e unhas manicuradas, mas o que mesmerizava o meu olhar era o bem mais preocupante Rolex dourado no pulso do Faraco, ambos mascavam chicletes e bebiam quantidades industriais de energético, trataram os demais canas com o mais absoluto desprezo e providenciaram o pior café da minha vida, capaz de lançar um diabético em coma com meia golada, desde o primeiro momento deixaram evidente o quanto cagavam pros meus contatos na grande mídia, Moura estava com o meu celular na mão.
― Quem é Brenda?
― Minha... mina, quer dizer, estamos saindo, ela quer um lance mais, tipo compromisso, sabe como são as mulheres...
― Bom, acho que vai ter que problemas com ela. Mas isso vai ser mais tarde, por enquanto este celular, e o senhor, são os nossos únicos contatos com o senhor Uzodima Iweala.
― Qual é a relação entre você e o americano? ― Faraco fazia a pergunta a poucos milímetros do meu rosto, felizmente pra mim, usava o perfume Gió da Armani.
Contei toda a história pela milésima vez na noite, atropeladamente como é do meu estilo, desejoso de agregar sinceridade a cada frase, nessas horas eu sempre penso que a minha vida seria mais fácil se eu falasse como o José Miguel Wisnik escreve.



domingo, 22 de novembro de 2015

os culpáveis (4)


Acontece que para designar o desejo de fazer (ou se fazer) sofrer, torturar, e até mesmo matar, em todos esses casos a crueldade seria extremamente difícil de determinar ou delimitar; uns reconhecem aí a essência astuciosa da vida: a crueldade como força vital sem fronteiras e sem oposição, quer dizer, sem fim nem contrário; outros já sustentam que o derramamento de sangue é contínuo, mas não há história sem contraposição, sinto muito pela bolha de segurança que o mundo ocidental construiu à sua imagem e semelhança, a guerra ao terror e às drogas, o ecoapocalipse nos acachaparam no ground zero das Torres Gêmeas, Nova Iorque ou Cabul?, Paris ou Tijuana?, Jacarta ou Osasco?, o futuro é um lugar onde o centro e a periferia chafurdam na mesma lama depois da bomba explodir, do drone focalizar a mira, do avião cair, somos todos iguais e indiferentes antes do fanático/maluco/milico entrar na cena metralhando a esmo.
            E acontece também que o Uzodima não teve papas na língua quando se tratou de explicar por que me queria: segundo ele, eu sou o “homem circunstancial”, um cabra totalmente marcado pelas condições do entorno, ou seja, totalmente determinado pelos parâmetros do aqui e agora, sem a mais leve réstia de princípios éticos universais ou uma moral própria, portanto, um “objeto antropológico” ideal para estudar o tal mundo pós-pós, dá pra agüentar amigos assim?, ele parece muito interessado na nossa cultura das margens, organizou uma visita a um “fluxo” na periferia de São Paulo, e continuou filosofando: o Brasil não é como a África, onde a barbárie reina sem máscaras, aqui temos eleições livres, a justiça dos ricos, imprensa livre, liberdade de ir e vir... só que não.
            Só que não foi o que eu e o Tomate pensamos logo, não que o Tomate tenha dito alguma coisa (ele nunca fala nada), mas não gostei de cara do cheiro da mexerica: um gringo negão e dois manes no Valo Velho?, e o Uzo nem conhecia direito o cara que era o contato dele lá na quebrada, mano, zona sul de Sampa não é para os fracos, além do mais ele alugou uma barca enorme pra nos levar ao pico, afinal, aquele corpanzil beirando os duzentos quilos não cabia em qualquer carrinho mille mais discreto, a balada toda tinha jeito de programa de índio, mas, o cara tava pagando.
            ― Que cara é essa, bro, estás aburrido?
― Quase nada meu irmãozinho, só tô deixando de ver a minha mina hoje pra pagar um mico tamanho família, num lugar perigoso que nem o waze sabe onde fica, tirando isso, tô bem sussa...
― Enton stay cool man, sussa, right?. Esse cara no habla nada?
― Suave na nave, my brother Uzo, o Tomate não faz mal a ninguém, é o nosso pé de coelho nesta doideira, relaxa, não ia deixar o broder moscando em casa sem fazer nada.
― Exacto, yo, ainda non vi fazer nada esse cara.
Batata, nos perdemos numas quebradas sinistras, até que parei a caranga num boteco de porta de garagem pra pedir informações, enquanto e não, decidi dar um pulinho no banheiro do pé sujo, que no caso era um terreno baldio ao lado do bar, precisava urgentemente dar uma cheirada.
Quando voltei ao balcão, senti uma sombra cruzando meu campo visual, achei que iam assaltar o boteco, mas o dono olhava por sobre o meu ombro com uma expressão mais curiosa do que preocupada, a cena acontecia à minhas costas, fora do bar, pedi um maço de derby, paguei, e só então me virei pra olhar também, um cara pra lá de mal encarado puxava o Uzodima pra fora da van alugada e lhe apontava uma arma pra cabeça, um segundo cara de boné imenso saiu em seguida de dentro da van dando tapas e coronhadas no Tomate, após deixar o pobre desacordado no chão, dirigiu-se a nós dentro do bar.
― Todo mundo no chão, seus zé-ruela do caralho!
Como se não tivesse sido suficientemente claro, começou a disparar na nossa direção, atirei-me ao chão caindo entre latas, copos, garrafas, caixas e uma chuva de vidro quebrado, um projétil atingiu a mesa de sinuca atrás da qual me escondera, a balaceira nos manteve cinco longos minutos colados ao chão, quando saí do meu esconderijo as portas da van continuavam abertas, as luzes internas acesas iluminando o desamparo do veículo recém vandalizado, do Uzodima só restava um botão da sua bata afro, desprendido provavelmente na difícil saída do carro do obeso amigo, uma nuvem subia ao céu estrelado inundando a noite com o cheiro inconfundível da pólvora.