“Ataques a bomba simultâneos em escolas do
Rio de Janeiro e São Paulo deixam 20 mortos e 16 feridos. O horário estimado
das explosões (7:15, horário de Brasília), foi o do início das aulas em duas
escolas privadas, na zona Oeste paulistana, e na zona Sul carioca. É o maior
massacre de estudantes já ocorrido no país, segundo o governador do Rio há 5
feridos em estado grave, que se somam aos 3 feridos em estado crítico
informados pelas autoridades de São Paulo. A maioria das vítimas são crianças de
8 a 10
anos do 3º ano do ensino fundamental, além de 2 professoras, 3 assistentes de
ensino e uma babá que se encontravam nas salas na hora do ataque. Em comunicado
conjunto, o Diretor Geral da Polícia Federal e o Chefe Adjunto da Abin (agência
brasileira de inteligência), admitiram haver suspeitas de que duas meninas, que
estão entre as vítimas fatais, teriam introduzido os explosivos nas escolas
dentro das mochilas, mas não confirmaram a versão de que elas se conheciam, nem
as suspeitas de haverem mantido contato recente com estrangeiros, segundo
afirmaram na nota divulgada há pouco, a hipótese de atentado terrorista não
está descartada por se tratar de escolas bilíngües onde estudam filhos de
diplomatas, finalizam afirmando que todas as possibilidades estão na mesa neste
momento. Houve princípio de pânico nas ruas do entorno das explosões,
seguiram-se bloqueios da polícia nas principais vias, com os prefeitos de ambas
as capitais declarando estado de emergência. Neste momento o trânsito registra
novos recordes para o período nas duas cidades, vêem-se muitas pessoas
abandonando os veículos na rua, descendo dos coletivos parados no
congestionamento e voltando a pé para suas casas. A qualquer momento é
aguardado um pronunciamento do presidente interino Michel Temer, e também da
presidente afastada Dilma Rousseff.”
sábado, 18 de junho de 2016
domingo, 12 de junho de 2016
o mensageiro (4)
Com ar de
pouco convencida a moça se afastou lentamente carregando o vestido dobrado para
o interior da loja, ficou no ar o risinho insolente de quando a viu entrando
cheia de sacolas, o sorriso do gato invisível, lembrou do entusiasmo que essa
história provocou em Giovanna na época, a filha é uma criança encantadora e
problemática, questionadora, como ela mesma foi antes de se tornar a pessoa
viciada em coisas estranhas de hoje, depois de assistir e ouvir todas as
versões de Alice milhões de vezes, a menina, do alto de incompletos quatro anos
de idade, lhe disse que não queria ser como ela quando crescesse, ‘Por que, Jojô?’,
‘Porque você não consegue mais voltar pra lá’, e no entanto tudo que ela faz é
voltar, voltar e trocar roupas que acabou de comprar, roupas e acessórios que
nunca vai usar: na verdade coleciona os celofanes e etiquetas das suas lojas
preferidas, nas trocas, as vendedoras invariavelmente embrulham e etiquetam o
produto de novo, ela desenvolveu uma técnica apurada pra descolar os adesivos,
realoca-os em pastas junto aos recortes dos celofanes com marca d’água, os
álbuns perfeitamente organizados atulhando seu closet pra desespero do marido,
Sílvia Regina sabe que as suas relações com as vendedoras de artigos de luxo
seguem um padrão peculiar, uma dinâmica predeterminada: paixão, ascensão,
declínio e rompimento abrupto, num período que varia de semanas a uns pares de
meses, a analista lhe disse que o envolvimento com essas moças representa a busca
daquilo que sente perdido pra sempre: juventude e pressa, e, realmente, ela não
tem pressa pra mais nada, desapareceu a lebre maluca e atrasada da sua vida, sobrou
apenas o ritmo irreal do chá das cinco na Montanha Mágica, aliás, conhece Davos
como a palma da mão, não que haja muito a conhecer ali, nem em Aspen, Ibiza,
Monte Carlo, Dubai, Chamonix, Cap Ferrat, St. Bartz, San Marino, Montblanc, cada
círculo exclusivo que consegue galgar, em cada festa, nenhum lugar ou pessoa
importante que lhe são apresentados conseguem mais causar a mínima comoção.
O celular
toca.
“Oi, querida,
viu o meu recado?”
“Ai, Sílvia,
li sim, e é sobre isso que preciso te falar... ai, meu santo, tô bem surtada. A
Isabella também recebeu um pacote hoje de manhã, tem uma equipe de segurança
aqui em casa, tá uma loucura!”
“Acalma,
respira, você não acha que estamos um pouco over? Deve ser só uma brincadeira
de meninas que estão com saudade, uma enviou pra outra e...”
“Sílvia
Regina, acorda pra vida, sai da negação. Então por que as duas enganaram as
babás e foram pegar as encomendas sozinhas na portaria? E por que depois não
havia pacote, embrulho, nem nada com elas? Meninas de oito anos não recebem
encomendas DHL!”
“Ok, tudo bem,
é estranho, mas a gente deu uma busca nas coisas todas da Jojô, na casa toda,
nos jardins do condomínio, e não achamos nada.”
“Tudo bem, pra
você?! Pois deixa eu te contar uma novidade: os detetives descobriram que havia
mesmo uma encomenda internacional pra Isa, de um tal Aylan Kurdi, que mora num
país sei lá o quê, tá bom?”
“Agora você me
assustou, o esquisito é que as meninas só ficam repetindo que era só uma
mensagem. Vou ter que avisar o pai...”
“Mas como
assim, teu marido ainda não está sabendo? Sil, não dá pra ficar de barata-voa,
meu bem. Não sei se é um pedófilo, mafioso ou terrorista, mas coisa boa não
deve ser.”
“Sabe como o
meu marido é ocupado, né? Ele detesta ser interrompido em reunião.”
“Você vem
dizer isso pra mim? O Caio Henrique vive grudado no prefeito mas teve que
participar imediatamente, não tem mole pra ninguém nestas horas.”
Desligaram,
ela pegou o embrulho das mãos da moça da loja e saiu sem se despedir,
experimentava uma espécie de enlevo que já desacostumara, descia escadas e
atravessava galerias em êxtase, uma coisa importante e urgente pra resolver, o
marido teria de lhe conceder algum pedaço da sua escassa paciência com as
miudezas das suas preocupações, afinal, aquela era uma situação de máxima
importância, exatamente o que já não havia mais na sua vida: o perigo de algo
real acontecer, algo novo e imprevisto, sozinha no elevador do shopping center,
mirava-se nos reflexos em abismo das paredes espelhadas enfileirando uma cauda
longa de Sílvias carregando sacolas e chorando, imagens encolhendo ao infinito,
lá onde uma Sílvia minúscula já quase não sente o peso dos dias.
domingo, 5 de junho de 2016
o mensageiro (3)
“Como
você sabe que o inferno existe?”, sentada na beira da cama, Giovanna não estava
disposta a aceitar afirmações peremptórias, muito menos verdades subentendidas.
“Simples,
eu estive nele”.
“Então
me conta como é lá, tem casas, escritórios, árvores, monstros?”
“Nada
disso. É um barco.”
“Como
assim, Allan, um barco?”
“Apenas
um barco, e o mar: imenso, vazio, perigoso”, o menino remexia as mãos hesitando
prosseguir no rumo da conversa.
“Não
estou entendendo, isso não se parece com o que me contaram...”
“Aquilo
não se parece com nada. Um esqueleto velho de madeira podre, todo enferrujado,
conduzido por piratas que sabem que a maioria dos passageiros vai morrer na
travessia.”
“Um
barco de piratas? Não sabia que piratas ainda existiam.”
“Existem
sim, são cruéis e cobram caro dos que precisam fugir da guerra. Minha mãe
entregou a única jóia de ouro que ganhou no casamento pra gente ir da ilha de
Kos ao porto de Bodrum na Turquia. Era tudo que nos restava, mas era pouco para
aqueles homens, não tínhamos dinheiro pra dar a eles, por isso meus pais viajaram
no porão e morreram sufocados, meus irmãos mais velhos iam no compartimento do meio,
junto com o óleo que queimou a pele deles pra sempre, nós crianças viajávamos
no convés, um lugar perigoso onde o vento e as ondas a toda hora derrubavam
alguém pra fora do barco. Não havia salva-vidas nem bóias pra salvar os que
caíam, e também ninguém se importava.”
“Que
horror! Nem dá pra acreditar que tem tanta malvadeza no mundo!”, os olhos de
Giovanna eram duas órbitas congeladas na moldura dos cílios longos.
“Mas
foi assim. O navio todo rangia balançando, ameaçando se desfazer a cada onda,
os gritos, as rezas, as rajadas de espuma salgada, tudo se tingia de uma cor
escura mesmo embaixo do sol, os sentimentos rodopiavam dentro de mim feito
ventos loucos, porque as coisas aconteciam sem nenhum sentido ou controle como
se estivesse dentro de um sonho ruim, pra esquecer a fome repassava na cabeça as
lembranças boas da minha vida e as cenas de um filme antigo, um senhor perdeu o
juízo e se atirou no mar durante a tempestade, meu desespero era um choro
silencioso que ninguém escutava, nem mesmo eu podia escutar.”
“Allan...
você perdeu seus pais?!”, grossas lágrimas quentes desciam pelo rosto de
heroína de mangá da garota.
“Giovanna,
desculpa, não queria fazer você chorar. Acontece que esta é a minha história,
não tenho onde me esconder dela.”
“Tô
bem, não se preocupe. Agora entendo porque você tá sempre triste e com medo das
pessoas. Prefiro quando me dizem a verdade.”
“Sei
que a minha vida machuca, mas não queria te machucar. É que... só você tem a
coragem de me ouvir, e eu tenho essa necessidade de contar, de dizer pra todos
que tudo isso foi real.”
“Minha
mãe falou que você não existe, que é invenção da minha cabeça. Ela falou pra eu
pensar que sou uma linda princesa que mora num lindo castelo, e assim vou
conseguir dormir na hora que tem de dormir. Disse bem assim: ‘O Allan é só um
amigo imaginário, daqui a pouco ele some’.”
“Às
vezes também penso que não sou de verdade. Não existe mais nada do que eu vivi,
só esta prisão onde me jogaram. Perdi o lugar no mundo, ninguém quer receber o
meu povo”.
“Deu
na televisão o nome da cidade que você morava.”
“Ah,
sim, é o noticiário das catástrofes nos lugares que só existem no mapa, a dor
das pessoas imaginárias.”
“Você
sente saudade da sua casa?”
“Minha
casa?... Seria aquela cidade onde as bombas caíam de surpresa enquanto
dormíamos, ou então quando estávamos reunidos nas festas? Pedaços: de lojas e
ruas, cachorros, carros abandonados, brinquedos deixados pra trás. Ruínas e pó.”
“Tem
alguma coisa que eu posso te ajudar, Allan?”
“Tem
sim, me dá seu endereço, vou te enviar uma encomenda. Provar que existo de
verdade.”
“E
o que é que você vai me mandar?”
“Uma mensagem.”
segunda-feira, 30 de maio de 2016
o mensageiro (2)
Sílvia
Regina ajeitou um vinco imaginário na saia, a boulangerie vazia àquela hora, na
única mesa ocupada a moça de óculos e tatuagens coloridas batuca no seu
notebook, mira-se no reflexo da cristaleira com trumeaus dourados repleta de doces
e pães de grãos selecionados, sim, ainda é uma pretty young lady com doutorado
na London School of Economics, mas o atraso da amiga deixa escandalosamente
claro: não tem com que preencher a tarde inteira, o dia inteiro, nem a vida
inteira, porque se casou com um homem maravilhoso que a instalou numa gaiola
tão cara e dourada quanto a cristaleira retrô da padaria gourmet onde espera a
grande amizade da sua infância chegar, o espelho inesperado dos seus óculos
escuros sobre a mesa lhe devolve a alegria de constatar uma vez mais os
pequenos milagres da maquiagem Lancôme, embora nesta felicidade também se
misture um medo supersticioso: a palavra esconde nas suas dobras cacofônicas tudo
aquilo que deseja expelir da sua vida, melancô, melancô, melancô, e por isso
tem preferido usar as marcas Shiseido e Vichy ― fato incontestável: 36 anos nas
costas e ela não sabe o que fazer com tantas horas sem nada pra fazer.
Checa
mensagens no celular, a amiga avisa que ainda demora ‘uns vinte minutinhos’,
pensa como seria bom morar no Rio de Janeiro como ela, perto do mar, longe do
sufoco daqui, as pessoas no Rio são mais leves, mais debonair, se levam (ou fingem
se levar) bem menos a sério, pensa em como a sua vida hoje se resume a
chatices: achar a peça do termostato do boiler, demitir o jardineiro da casa de
Itu, reunião com o veterinário do haras, com o advogado, com a fonoaudióloga da
filha, o cotidiano de ‘mãetorista’ de Giovanna: escola, nutricionista, terapia,
balé, endócrino, ortodontista... às vezes se pergunta se ama de verdade a
filha, o marido, ou a si mesma, por que existem tantas faces em mim, tantos
lados na verdade?, mas logo entra outra linha de pensamentos, as mensagens vão
pipocando na tela: ‘Miga, qta sdd!! Bora skiar prox férias?? #PartiuVail’, não
sabe como explicar a ela que nunca mais poderão esquiar, viajar, nem sequer
jantar juntas com as respectivas famílias porque o marido da amiga aproveita
qualquer descuido pra se atirar sobre ela, Sílvia não pode, simplesmente não
consegue contar, prefere se afastar, fugir, deixar a distância de 400 km esfriar a amizade,
esta é a sua vida: feita de grandes atropelos e pequenas fugas.
“Sil,
desculpa a demora, peguei um congestionamento monstro. Pelo menos de Uber sai
mais barato. Imagina, fiquei um tempão parada por causa de uma dessas escolas
invadidas, tinha polícia, gás lacrimogênio, um horror!”
“Vá
entender essa gente, precisam tanto de escola e ficam fazendo greve,
ocupação... Bom te ver, linda, quanto tempo?, um ano sem nos vermos.”
“Olha,
não aceito mais desculpas: no Finados vocês vão ficar com a gente lá na Barra, morar
no Rio é dez, mas ficar longe da melhor amiga ninguém merece. A Isabella não
pára de perguntar da Jojô, sabia?”
“É
mesmo, as filhas continuaram a nossa amizade. Umas fofas. Como está a Isa?,
sempre foi tão inteligente...”, Sílvia precisava urgentemente mudar o assunto.
“Hmm,
inteligente até demais, tá me dando um trabalho do cão! Você acredita que agora
ela vive me perguntando coisas do tipo: ‘Mãe, por que existem pobres?’, ou pior
ainda: ela descobriu que o condomínio que o pai construiu, o Ilha Pura,
expulsou umas duas três famílias, ai, virou um inferno...”
“Acho
que é da idade, vem das amigas da escola uma parte. A Jojô deu de não comer
mais carne, só aceita peixe. Dá pra acreditar, você que a conhece?”
“Sério?!
Que coincidência, a Isa também passou a recusar carne, e você lembra como ela
era alucinada por lingüiça, né? Hoje faz cara de nojo. E quer saber da maior?
Agora ela tem um amiguinho imaginário, o tal de Aylan. No começo até achei que
era algum tarado da internet, dei uma vasculhada no Face e no celular dela, mas
não vinha daí.”
“Não
é possível, a Jojô também me falou desse amigo, o Allan, mas nem dei muita bola
porque achei que era um menino da escola... Mas agora que você falou, ela
também começou a perguntar coisas estranhas sobre refugiados, crianças morrendo
de fome e frio...”
“Sílvia,
você acha possível que as nossas filhas estejam se falando e inventando essas
histórias?”
“Pode
ser, amiga, mas também fucei nas coisas dela e não achei nada nos históricos que
indique...”
“O
que a gente está fazendo de errado, Sil? Essas meninas têm do bom e do melhor,
criadas no leite de pêra... e depois, só têm oito anos!”
“Bom,
eu corri com a Jojô pra terapia, vai ver é algum trauma.”
“Bom,
não dá pra ter trauma de infância na
infância! Além do que, toda a infância é traumática de algum jeito.”
“Lembro
de você me falando que a Isa tomava Concerta, será o caso...?”
domingo, 22 de maio de 2016
o mensageiro (1)
“Oi,
achei que você não vinha”.
“Por
quê? Eu sempre venho”.
“Allan,
você só aparece quando os meus pais não estão aqui...”.
“É
porque tenho medo”.
“Você
tem medo de todo mundo”, Giovanna ajeitou os lençóis e deitou de lado, voltada
pra ele.
“A
minha vida tem duas partes: uma que eu vivia num lugar pequeno e todos eram
amigos, e outra onde o mundo é um mar sem fim e todos me tratam mal”.
“As
metades pra mim são misturadas: tem um lado bom e um lado ruim em casa e na escola”.
“Eu
ia à escola antigamente... quando vivia na minha terra”.
“Agora
você não estuda mais? Eu queria não ter que ir pra escola...”.
“Melhor
ter pra onde ir, Giovanna, ficar preso é muito pior”.
“Você
é a única pessoa que me chama assim, os outros todos me chamam de Jojô”.
“Posso
te chamar de Jojô, se você quiser”.
“Não
precisa, gosto do jeito que você fala meu nome. Se você está preso, como
consegue sair pra me ver?”.
“É
o único lugar que posso ir além da prisão”.
“Já
é melhor que nada”.
“Qualquer
lugar é melhor do que este buraco onde me largaram. As pessoas deviam ser felizes aqui
fora”.
“Ninguém
pode ser muito feliz por aqui, alguém vem sempre te zoar, dizer que é proibido,
manda tirar a mão disto e daquilo”.
“Eu
nunca te peço nada, vai ver é por isso que...”.
“Por
isso que, o quê...? Allan você tem que terminar o que diz. Ou então, conta pra
mim como é que são as coisas onde você está agora”.
“Não
há nada pra fazer, nunca. A comida é ruim. Às vezes a gente pode jogar bola,
mas faz muito frio. Sabe, parece que eu tenho uma doença bem grave”.
“Você
está doente?”, Giovanna sentou-se na cama e passou a examiná-lo atentamente.
“Não
é uma doença de verdade, mas as pessoas não querem mais chegar perto dos
presos. Como se a gente fosse pegar neles uma coisa muito feia”.
“Você
tá dizendo que ninguém tem pena do que te aconteceu?”
“Tô
dizendo que as pessoas fogem daquilo que não querem lembrar, acho que quando me
vêem só enxergam a pobreza, e também a morte”.
“É
verdade. Todo mundo foge disso, a Ceiça, que trabalha aqui em casa, se benze
toda vez que ouve falar em morte”.
“Eu
só quero viver, poder voltar pra minha casa. O que mais queria era começar tudo
de novo”, sentou-se na cadeira ao lado da cama dela.
“Bom,
pelo menos você sabe quando tudo começou”.
“Sim,
eu sei quando este inferno começou, mas... não tenho a certeza de que ele vai
acabar”.
“Vai
terminar uma hora, até o azar cansa de azarar. Eu acho que quando eu for grande
tudo vai ser diferente”.
“Giovanna,
é tão bom falar com você! O mundo fica menos assustador quando estou aqui”.
“Obrigada.
Você é legal, Allan, só é diferente das outras pessoas. Uma hora vão entender
isso, não acha?”.
domingo, 1 de maio de 2016
a paisagem impraticável
urge viver
inventar
minutos audaciosos
no encontro das esquinas
qualquer coisa pode acontecer
nestes idos
de argila e sangue
palavras breves são duras de
achar
a língua tropeça orelhas erram
temendo a primavera
formas gravadas
e descartadas
em tudo a mesma ausência
a chuva
a multidão
o amor ao torturador
cresce na tarde
como o cimento
a carroça atolada empurra o
cavalo para baixo
até que a pedra soletra um nome
designando ninguém
um alguém
abolido
línguas de fogo desenham teu rosto
sem base política
a rua é um campo de papoulas
infladas
demônios
peixes suicidas
ridículos e adoráveis
caçamos sombras saltitantes
de manhã ao meio dia
vozes tecem discursos que
confirmam
e deleitam
pois o touro vira bife e o amor
conveniência
é mais fácil morrer
do que crescer como os esquecidos
mas há palavras de ordem
janelas quebradas
lançando a canção livremente no
ar
e muitas e muitas
lantejoulas
sábado, 23 de abril de 2016
Red Star (final)
Jaqueline
acordou primeiro. Quando Lucía começou a se mexer no seu canto, ela já havia se
acostumado com a obscuridade do lugar: uma sala de aproximadamente vinte metros
quadrados, abafada, toda em concreto, sem luz nem janelas, de um dos cantos
subiam degraus de ferro chumbados à parede. No canto oposto à escada, havia uma
mesa e duas cadeiras. Alguém algemara as mãos e os pés delas, a corrente das
algemas das mãos passavam por trás de um fio de aço que corria na direção do
maior comprimento do cômodo e permitia que se movimentassem lateralmente até o
banheiro, na verdade, um buraco no chão fazendo as vezes de fossa.
Lucí estava
enjoada, Jaque arrastou-a como pôde para o buraco onde a amiga vomitou tudo a
que tinha direito. Sentaram-se lado a lado com os braços elevados por causa das
algemas suspensas no fio de aço.
― Desculpa.
― Desculpa do
quê, Jaque? Você não me obrigou a nada.
― Fui eu que
te meti nesta encrenca...
― Nada disso,
eu quis participar de tudo. Nós duas queríamos, e nós fizemos tudo juntas.
― Eu devia ter
desconfiado, esse homem é um monstro. Esperto demais pra ser pego.
― Sabe de uma
coisa?
― O quê?
― Você é a
melhor amiga que já tive.
Ouviram o
ruído de uma porta abrindo pesadamente acima, depois, o barulho de alguém
descendo os degraus de ferro. Boyd apareceu carregando garrafões de água e
embrulhos com mantimentos, exibia modos relaxados, embora os olhos azuis
parecessem agora quase negros.
― Bom dia
señoritas, nada como um café da manhã reforçado pra se recuperar de uma viagem
desconfortável. Vocês devem estar com dores musculares porque tive de trazê-las
no porta-malas até aqui ― largou os embrulhos sobre a mesa, pôs os vasilhames
com água no chão e sentou-se numa das cadeiras.
― Que lugar é
este? O que pretende fazer conosco, seu canalha? ― os olhos de Lucí lampejavam
como bruscos rasgões no céu enevoado de uma raiva infinita.
― Ora, ora, La
Fúria, gosto disso. É tão... espanhol, não é mesmo? Espero satisfazer a
contento todas as curiosidades das minhas hóspedes: este é um centro de
detenção provisório de terroristas, existem vários destes bunkers secretos
espalhados pelo mundo, digamos que aqui se praticam “técnicas ativas de
interrogatório”, acreditem, sem isto não haveria mundo livre.
― Um centro de
tortura! Bem adequado pra escória que você é ― Jaque acordou inteiramente do
efeito do sonífero, mas não sentia que despertava para a vigília, e sim num
pesadelo inominável.
― Por outro
lado, o que vai acontecer daqui pra frente depende inteiramente de vocês. Vou
lhes dar uma alternativa ― puxou umas folhas de papel, que estendeu sobre a
mesa.
― Que
alternativa você teria pra nós, vai nos enviar pra Guantánamo?
― Quase. Na
verdade estes papéis são para a abertura de empresas off shore no Panamá. Tenho
comigo os seus cartões de crédito e bancários, preciso das assinaturas e das
senhas. Transfiro todo o dinheiro pra fora do país, e vocês vão viver felizes
longe do sol da Andaluzia e, de preferência, da Europa. Se voltarem, se fizerem
contato com a família ou os amigos, se avisarem a polícia, eu acho vocês e
acabo com as duas bem devagarinho.
― Quer dizer
que você solta a gente se assinarmos esses papéis?
― Calma,
Jaque, depois que tivermos assinado isso daí, com as senhas na mão, ele pega a
nossa grana e mata a gente do mesmo jeito. Pensa bem, assim ele teria o álibi
perfeito, a polícia nem se preocuparia em investigar: duas mulheres rapam suas
economias e somem no mundo juntas pra viver seu louco amor. E o imbecil do Paco
seria o primeiro a confirmar a história.
― Tem razão,
Lucí, o que diz o senhor licença-para-matar?
― Olhem, se eu
estiver mesmo a fim, consigo tirar qualquer coisa de vocês. Posso, por exemplo,
começar com Lucía enquanto Jaqueline assiste, depois trocamos algumas vezes e...
Hahaha, aposto que não era bem assim o ménage à trois que me propuseram! Obtive
confissões de sandinistas, etarras, comandantes do IRA, da Al Qaeda e do DAESH,
com duas meninas assustadas?, arranco até aquilo que nunca contaram a vocês
mesmas.
― Você é um
lixo, Boyd, é isso que nunca poderá deixar de ser: um grande saco de bosta!
― Só me
responde uma coisa: por que fez aquilo comigo?
― Jaqueline,
não há uma razão, nunca houve, fiz porque podia fazer. Foi aí que erraram
infantilmente: não podiam me matar, no fundo vocês só queriam poder ser iguais
a mim uma vez na vida. Bom, eu lhes dei uma escolha, dou-lhes mais uma semana
pra pensar. Aqui têm comida e água para agüentarem uma semana, enquanto isso
estarei numa missão. Nosso próximo encontro será decisivo, garanto.
Efetivamente,
Boyd contava voltar em duas semanas, calculava que um certo grau de stress
alimentar e hídrico facilitaria as negociações. Mas não podia imaginar que a
situação no Iêmen (para onde fora enviado) iria se deteriorar tão rapidamente e
por tanto tempo: só conseguiu voltar à Espanha depois de 3 meses. Alugou um
carro no aeroporto e dirigiu a duzentos por hora rumo ao bunker onde deixara as
duas amigas, perguntava-se se ainda estariam vivas.
A cena era
bárbara até pra quem vivia na barbárie, encontrou-as completamente
desfiguradas. Uma delas jazia morta num canto, pedaços de pele com cabelos entupiam
os ralos, acumulando sangue e dejetos no cubículo, o cheiro era nauseabundo. A
que ainda vivia apresentava grandes porções de carne arrancadas, os ossos dos
dedos expostos, a barriga aberta num talho irregular deixando à vista os
intestinos que escorriam da cavidade abdominal para o solo. No rosto
escalavrado e irreconhecível do farrapo humano podia ver-se a brancura
carminada dos globos oculares rotacionando expostos.
― Quem é você?
Jaque ou Lucí?
― A pergunta
é: quem é você, Thomas Kemper Boyd?
― É você
Jaqueline? Só me diz isso.
― Não me
reconheces? Sou a loucura escondida dentro de ti e de todos os outros, rogando
a todo momento pra ser liberada, desde o mais profundo do animal que és, da
fera sem descanso que nunca deixarás de ser, sou as pedras chamuscadas das
aldeias supliciadas por teus exterminadores, as valas comuns onde jogaste os
corpos dos inocentes, sou o silêncio dos torturados, o enigma que se esconde
nos teus mais estranhos pesadelos, sou todas as noites que nunca mais dormirás, a estrela vermelha que nunca te abandonará.
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