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domingo, 25 de março de 2012

A Caixa (parte 1)



Uma luz.

Branca, forte, bem na minha cara.

Luz branca, detesto luz branca. Há um zumbido fino ao fundo. Sinto dores no corpo todo, e só então percebo que estou despertando de um sono infinito.

Tenho dificuldade para abrir os olhos, as pálpebras pesam, tento desviar da luz. Parece um foco retangular embutido na parede.

Não, não é a parede, é o teto. Estou deitado, concluo, retomando contato com as pernas, os braços e o tronco. Mas não é possível movimentar nenhum deles.

Começo de pânico: sofri um acidente e estou paralisado numa cama de hospital. Tentativa de auto-consolo: bom, pelo menos acordei.

Bastou pensar nisso para descer um cansaço de larva. O que me acontece não é algo como adormecer, esse fenômeno que lembra uma imersão lenta e prazerosa, parece mais com ser arrastado.

Um puxão violento no centro do peito, a sensação de queda. Perdi o plano de apoio, não há beiras: estou caindo num buraco fundo, escuro e sem paredes. Balanço meus braços freneticamente, reagindo por reflexo.

Dormi de novo. Muito? Pouco? Não tenho como saber. A luz continua lá, batendo de chapa, incômoda como antes. Talvez não tenha realmente caído, ainda é o mesmo lugar ― mas que lugar será este?

As dores voltaram piores, viraram cãibras terríveis brotando em diversos pontos do corpo ao mesmo tempo. Grito, grito a toda voz, praguejo, urro de dor. Choro descontroladamente (minutos?, horas?), as lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos para dentro dos ouvidos.

Quando consigo me acalmar, resta pouco de gente em mim: sou uma toalha estendida no catre duro. Vejo que não estou paralisado, mas todo torto sobre uma cama por causa das dores.

A dificuldade para mexer mudou: agora é a preguiça de chumbo que toma conta, uma vontade de regredir; como se adivinhasse que a consciência recuperada traria novas dores. Não é nenhum cenário conhecido este, só a estranheza e o medo lembram aquele sentimento da infância quando acordava fora de casa.

Num esforço extra, consigo me sentar; para logo ser abalroado por uma vertigem. Vomito. Líquido puro, quer dizer, um gorgolão de baba esverdeada e amarelenta a indicar que a fome cavando o estômago é antiga.

A cama é uma chapa de ferro chumbada na parede e suspensa por duas correntes, também fixas na parede, o colchão que a recobre consiste de uma camada de espuma sob o lençol branco. O quarto deve ter uns vinte metros quadrados, se tanto, pintado numa tonalidade de cinza; dá para perceber no reboco raspado marcas e ranhuras mal preenchidas com massa corrida. No piso sintético, um linóleo de cor ligeiramente mais clara, brilha o reflexo das duas fileiras de luminárias no teto alto. À minha direita, um buraco no chão faz as vezes de privada; em frente, outro buraco na parede acima de um registro. Quarto não, suíte.

Estou descalço. Levanto com a intenção de dar uma geral mais detalhada no ambiente. Tateando ao longo dos muros rústicos, descubro uma superfície fria e brilhante situada na face localizada à esquerda do leito. Do tamanho de uma porta padrão, a placa interrompe a mesmice pálida das paredes — um homem de cabelos compridos e barba, vestido num uniforme amarelo me olha desde uma cela absolutamente idêntica a esta.

O vidro espelhado apresenta ligeiro recuo em relação à parede; começo a bater nele para ver se obtenho alguma resposta, até que reparo que estou aos berros chutando e pedindo socorro. Inútil, é como se fosse mais duro que o concreto.

— Alguém... quem está aí? Eeii!! Abre essa porta, me tira daqui! Tem alguém aí? Abre essa porra dessa porta! Aaah!! Já deve ter gente preocupada comigo, vocês precisam avisar...

Quem?

Uma pontada aguda no coração. Não faço a menor idéia de quem sou, a quem avisar, ou o que eu fiz para estar aqui. Não reconheço a pessoa que vejo no espelho.


Um comentário:

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